O AMOR E A NATUREZA HUMANA

E mais uma vez me debruço para escrever sobre o amor no cotidiano de um casal e a natureza humana que fica à espreita. Certamente todos já ouviram a frase “Quem ama não trai”, tendo a discordar veementemente desta ignomínia ao verdadeiro amor, mas explicarei meu ponto ao longo do texto. Primeiramente, quando falamos de amor, nada é preto no branco, ou seja, aquela ideia bonita de que casais que se amam não brigam, não sentem ciúmes, pois um aceita o outro como são, é a mais pura conversa fiada.

Amor é insegurança. De certa forma, nos tornamos refém da pessoa amada, simplesmente porque o amor passa a ser uma necessidade básica do cotidiano, logo, só de imaginar viver sem o amado ficamos apreensivos e inseguros. O ciúme e as brigas vêm junto com tudo isso. Logicamente, os primeiros anos deste afeto amoroso são os mais fervorosos, pois amor, desejo e paixão agem ao mesmo tempo focando em um ser único. É humanamente impossível que não haja conflito dentro deste furacão de sentimentos que assolam ambos.

O que a natureza humana faz com nós homens, é nos colocar a vontade insaciável por diversas fêmeas. Então, quando passamos a amar uma única mulher, todo este nosso desejo disperso por várias mulheres se intensifica numa única alma, eis que o amor acontece. Após este frenesi de início de afeto, as coisas começam a clarear. O que antes era pura emoção e sentimentos, agora tende haver um equilíbrio com a razão. Passamos a enxergar as coisas como são. E isto é bom. O amor se estabiliza, a intimidade ganha força e o desejo sexual diminui, pois certamente vocês tem muito mais a oferecer um para o outro do que um desejo carnal de reprodução. Então, se você é daqueles que tem o objetivo de transar todo dia, não case e continue solteiro para o resto da vida; nada mais fácil do que sentir desejo pelo ineditismo, o difícil é continuar desejando a rotina.

E todos tendemos à rotina porque é seguro, e, biologicamente procuramos segurança. Por isso estamos cansados de ouvir por aí que somos resistentes à mudança, logo, a desculpa mais usada para fins de relacionamento é: acabou porque caiu na rotina. Não acredito nisto. Acabou porque não existia amor. E como sou um grande admirador de Nelson Rodrigues, cito uma de suas célebres frases: “Todo amor é eterno, e, se acaba, não era amor.”

O amor perdoa inclusive traição. Tem algo mais belo do que um homem chorando aos pés de sua amada sentindo a culpa lhe corroer por tê-la traído? Acho difícil. Uso o adjetivo “belo” por se tratar de um ato de arrependimento, de culpa, e todo indivíduo que sente culpa ainda possui humanidade. Quando digo que um homem mesmo amando pode trair, me refiro a um embate entre a natureza humana do homem e sua razão. Quando um homem trai, normalmente ele se deixou levar aos impulsos da sua natureza, do seu instinto, ou seja, a razão perdeu a batalha. Por isso que traição para um homem é totalmente carnal e crua. Depois ele consegue voltar para sua amada e amá-la incondicionalmente. Não estou aqui me atendo à questão moral, ou seja, se é certo ou errado, estou citando o que acontece conosco.

Normalmente, quanto menos autoconhecimento o homem possui, maior é o risco de trair sua amada, justamente pelo fato de ele seguir seus instintos carnais sem sequer ter um embate entre corpo e mente. Ele não entende que aquela vontade biológica de reprodução é apenas seu corpo seguindo seu curso natural, e, ao contrário do que muita gente pensa, a monogamia é antagônica à natureza do homem. Criamos a monogamia por sermos seres inteligentes, pois percebemos que nada é mais forte que a união de uma família. Então homem, se há amor entre você e sua amada, não traia, não macule a relação por uma vontade ridícula e ignorante, e, se trair, aguente as consequências e tenha a dignidade de assumir seus erros. Peça perdão e reze para ser perdoado.

Quando a mulher trai é algo mais complexo e consciente. Raramente é por desejo carnal, mas por vingança, por uma falta específica de afeto. A mulher tem a capacidade de trair e rir da cara do marido; a mulher é cruel; a mulher, ao mesmo tempo que consegue nos dar toda sua bondade, todo seu carinho, todo seu amor, ela também é capaz de uma frieza implacável, de uma indiferença desumana e de uma ira dos deuses. Como entender a complexidade de um ser destes?

Então, a pergunta que me faço é: como dois sexos tão diferentes conseguem viver uma vida inteira lado a lado passando por cima da natureza humana, dos instintos e dos erros um do outro? A única resposta para essa pergunta é “amor”, por isso mesmo que ele é eterno, caso contrário, no primeiro empecilho, na primeira crise, na primeira discussão, ele acabaria, e você apenas trocaria um amor pelo outro, como um brinquedo que estraga e não há sequer a tentativa de consertá-lo. Nada mais fácil neste mundo líquido do que trocar de brinquedo, não é mesmo?

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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