NOTA LITERÁRIA #10 – A METAFÍSICA DO AMOR E OUTRAS REFLEXÕES (ARTHUR SCHOPENHAUER)

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Se você nunca leu uma linha do que Schopenhauer escreveu, as notas marcadas abaixo são um ótimo começo para começar apanhar. Digo apanhar, pois cada frase do filósofo é um soco seco na face:

(…)tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro é tão somente um objeto em relação a um sujeito, apenas percepção, em relação a um espírito que o percebe. Ou seja, é pura representação.

Tudo o que o mundo encerra ou pode encerrar depende necessariamente do sujeito que o percebe, e existe exclusivamente para tal. Assim, o mundo é representação.

Se o mundo é nossa representação, o mundo nada mais é do que Maya – a ilusão, a transitoriedade e a impermanência são, portanto, suas características primordiais. Neste mundo cheio de desejos que de fato nunca serão totalmente satisfeitos, tudo o que podemos experimentar é a dor e a angústia de uma grande insatisfação, um vazio no peito, uma sensação estranha de que nada tem realmente um sentido de ser.

O mundo é a minha representação, mas é possível transcender esta representação? E, em sendo, é possível descrever tal transcendência com palavras? Em suma, é possível relatar a face da Eternidade?

Porque toda a paixão, por mais etérea que possa parecer, tem todas as suas raízes no instinto natural dos sexos; e até mesmo não é outra coisa senão esse instinto especializado, determinado, e inteiramente individualizado.

Assim sendo, reflita que se se observar o papel importante que o amor em todos os seus graus e em todos os seus cambiantes desempenha, não somente nas comédias e nos romances, mas também no mundo real, onde é, com o amor da vida, a mais poderosa e a mais ativa de todas as molas; se se reparar que ele ocupa continuamente as forças da parte mais jovem da humanidade, que é o alvo definitivo de quase todo o esforço humano, que tem uma influência perturbadora sobre os negócios mais importantes, que a toda a hora interrompe as mais sérias ocupações, que muitas vezes desnorteia, por bastante tempo, os espíritos mais elevados, que não tem nenhuma cerimônia em intervir com as suas frivolidades nas negociações diplomáticas e nos trabalhos dos sábios, perturbando umas e outras, que é mesmo hábil em insinuar as suas cartinhas ternas e os seus aneizinhos de cabelo, até nas pastas dos ministros e nos manuscritos dos filósofos, o que não o impede de ser cada dia o promotor dos piores e mais confusos negócios, que rompe as relações mais preciosas, quebra os laços mais sólidos, tem por vítima ora a vida, ou a saúde, ora a riqueza, as normas sociais e a felicidade, que faz do homem honrado um homem sem honra, do fiel um traidor, que parece ser assim como um demônio malfazejo que se esforça por transtornar tudo, por embrulhar e por destruir tudo — há, então vontade, de exclamar: Para que é tanto barulho? Para que são todos estes esforços, estes arrebatamentos, essas ansiedades e esta miséria? No fim de contas, trata-se apenas de uma coisa bem simples, trata-se somente de que cada João encontre a sua Maria!

Não se trata já, efetivamente, como nas outras paixões humanas, de uma infelicidade ou de uma vantagem individual, mas da existência e da constituição especial da humanidade futura: a vontade individual atinge, nesse caso, o seu poder mais elevado, se transforma em vontade da espécie.

Por desinteressada e ideal que possa parecer a admiração por uma pessoa amada, o alvo final é, na realidade, a criação de um ser novo determinado na sua natureza: o que prova que o amor não se contenta com um sentimento recíproco, mas exige a posse mesma, o essencial, isto é, o gozo físico.

indivíduos muito apaixonados se satisfazem com a posse, isto é, com o gozo físico. É este o caso de todos os casamentos obrigados, dos amores venais ou dos obtidos por violência. A geração de algum filho, é esse o fim único, verdadeiro de todo o romance de amor, embora os amorosos não o percebam conscientemente: a entrega que conduz ao desenlace é uma coisa acessória.

O primeiro passo para a existência, o verdadeiro punclum saliens [ponto saliente] da vida, é na realidade o instante em que nossos pais começam a amar-se — to fancy each other [se entusiasmarem um pelo outro], segundo uma admirável expressão inglesa, e, como dissemos, é do encontro e da união dos seus ardentes olhares que nasce o primeiro gérmen do ente novo, gérmen frágil, pronto a desaparecer como todos os gérmens.

Para alcançar o seu fim, é preciso pois que a natureza alucine o indivíduo por meio de alguma ilusão, em virtude da qual ele veja a sua própria felicidade naquilo que, realmente, não é mais do que o bem da espécie; o indivíduo se torna deste modo escravo inconsciente da natureza, no momento em que julga obedecer apenas aos seus desejos.

Deste modo, portanto, não há homem que não comece por desejar ardentemente e não prefira as mais belas criaturas, porque realizam o tipo mais puro da espécie; depois procurará sobretudo as qualidades que lhe faltam, ou às vezes as imperfeições opostas às que ele próprio tem e as achará belas: daí provém, para dar alguns exemplos, as mulheres grandes agradarem aos homens pequenos, os louros gostarem das morenas etc.

O entusiasmo vertiginoso que se apodera do homem ao observar uma mulher cuja beleza corresponde ao seu ideal, e faz brilhar em seus olhos a miragem da felicidade suprema, imaginando a possibilidade de vir a se unir com ela, não é outra coisa senão o sentido da espécie que reconhece a sua característica brilhante e clara, e que gostaria de se perpetuar através dela…

Assim, neste instinto, como em todos os outros, a verdade se reveste de ilusão para atuar sobre a vontade. É uma ilusão de voluptuosidade que faz cintilar diante dos olhos do homem a imagem enganosa de uma felicidade soberana, nos braços da beleza que, a seus olhos, não é igualada por nenhuma outra criatura humana; ilusão ainda, quando imagina que a posse de um único ser no mundo lhe assegura uma felicidade incomensurável e ilimitada.

O homem, com efeito, pode facilmente gerar mais de cem filhos num ano, se tiver outras tantas mulheres à sua disposição; a mulher, pelo contrário, ainda que tivesse outros tantos maridos, não poderia dar à luz senão um filho por ano, excetuando os gêmeos. Por isso, o homem anda sempre em busca de outras mulheres; ao passo que a mulher se mantém fielmente unida a um só homem: porque a natureza a incita, instintivamente e sem reflexão, a conservar junto dela aquele que deve sustentar e proteger a pequena família futura.

Daí resulta que a fidelidade no casamento é algo artificial para o homem e natural na mulher, e por consequência, o adultério da mulher, tanto por causa das suas consequências, como por ser contrário à natureza, é muito mais imperdoável do que o do homem.

Pelo contrário, mulheres gordas além de toda a marca, excitam a nossa repugnância; porque este estado mórbido é um sinal de atrofia do útero, e por conseguinte uma prova de esterilidade. Não é a inteligência que sabe isto, é o instinto.

É natural não podermos enumerar com a mesma exatidão as considerações inconscientes a que se prende a inclinação das mulheres. Eis o que se pode afirmar de um modo geral. É a idade de 30 a 35 anos que elas preferem a toda outra idade, mesmo à dos rapazes, os quais todavia representam a flor da beleza masculina. A causa está em serem dirigidas não pelo gosto, mas pelo que reconhece naqueles anos o apogeu da força geradora. Em geral, consideram muito pouco a beleza, sobretudo a do rosto: como se elas só se encarregassem de a transmitir ao filho. São principalmente a força e a coragem do homem que lhes conquistam o coração, porque estas qualidades prometem uma geração de filhos robustos, e parecem lhes assegurar no futuro um protetor corajoso.

É preciso excetuar somente as qualidades do homem, particulares ao seu sexo, e que a mãe por consequência não pode dar ao filho; por exemplo, a estrutura masculina do esqueleto, ombros largos, quadris estreitos, pernas direitas, força dos músculos, coragem, barba etc. Daí provém que as mulheres gostam muitas vezes de homens feios, mas nunca de homens efeminados, porque não podem neutralizar tal defeito.

Aqui veremos que são as qualidades do coração ou do caráter no homem que atraem a mulher, porque essas qualidades o filho recebe do pai. É acima de tudo uma vontade firme, decisão e coragem, e talvez também a retidão e bondade da alma, que conquistam a mulher. Pelo contrário, as qualidades intelectuais não exercem nela nenhuma ação direta e instintiva, justamente porque o pai as não transmite a seus filhos.

Não há nada tão singular como a seriedade profunda, inconsciente, com que dois indivíduos novos de sexo diferente, que se veem pela primeira vez, observam um ao outro; o olhar inquisidor e penetrante que trocam, a inspeção minuciosa que todas as feições e todas as partes das suas respetivas pessoas têm de sofrer. Esta investigação, este exame, é a meditação do gênio da espécie sobre o filho que poderiam criar, e a combinação dos seus elementos constitutivos.

(..) a intensidade do amor aumenta à medida que ele se individualiza.

(…) o puro instinto sexual é um instinto vulgar, porque não é dirigido para um indivíduo único, mas para todos, (…)

Quando o amor se fixa num ser único, atinge então uma tal intensidade, um tal grau de paixão que, se não pode ser satisfeito, todos os bens do mundo e a própria vida perdem o seu valor.

É uma paixão de uma violência que nenhuma coisa iguala, não recua diante de nenhum sacrifício, e que pode levar à loucura e ao suicídio.

[Quem já amou que não tenha sido à primeira vista?] (Shakespeare, As You Like It, III, 5)

“Não é necessário, para que alguém ame, que decorra muito tempo, que se faça reflexão e nem escolha; basta que, naquele primeiro e único olhar, ocorra certa correspondência ou consonância, ou aquilo que costumamos vulgarmente designar como uma simpatia de sangue, e que com um particular influxo move as estrelas.”

O sentimento de que atua em circunstâncias de uma importância tão transcendente, transporta o amante a uma tal altura acima das coisas terrestres e mesmo acima dele próprio, e reveste os seus desejos materiais de uma aparência de tal modo imaterial, que o amor é um episódio poético, mesmo na vida do homem mais prosaico, o que o torna por vezes ridículo.

I love and hate her [Eu a amo e a odeio] (Shakespeare, Cymb, III, 5.)

O gênio da espécie que tinha tomado posse do indivíduo, o abandona de novo à sua liberdade. Abandonado por ele recai nos limites estreitos da sua pobreza, e se admira de ver, depois de tantos esforços sublimes, heroicos e infinitos, nada mais do que uma satisfação vulgar dos sentidos: contra toda a expectativa, não se acha mais feliz do que dantes. Percebe que foi ludibriado pela vontade da espécie.

[Aquilo que não tem em si nem razão nem medida, não pode ser regido pela razão].

Então, sucede que os casamentos de amor são bastante regularmente infelizes, porque asseguram a felicidade de geração futura, mas à custa da geração presente. Quem se casa por amores, há de viver com dores, diz o provérbio espanhol.

Os casamentos felizes são, como se sabe, muito raros, justamente por ser da essência do casamento o não ter por fim principal a geração atual, mas sim a geração futura.

Qual é, pois, o motivo pelo qual o apaixonado se entrega com um completo abandono aos olhos daquela que ele escolheu, e está pronto a lhe fazer toda a espécie de sacrifício? Porque é a parte imortal do seu ser que suspira por ela; ao passo que outro qualquer dos seus desejos apenas se refere ao seu ser efêmero e mortal.

Se agora, nos colocando no ponto de vista destas últimas considerações, mergulhamos os nossos olhos no tumulto da vida, vemos a sua miséria e os seus tormentos ocuparem todos os homens; vemos os homens reunirem todos os seus esforços para satisfazerem necessidades sem fim e se preservarem da miséria sob inúmeras formas, sem contudo ousarem outra coisa senão a conservação, durante um curto espaço de tempo, dessa mesma existência individual tão atormentada. E eis que em pleno turbilhão, vemos dois amantes cujos olhares se cruzam, cheios de desejos – mas por que tanto mistério, por que com tanto medo e às escondidas? Porque todos os amantes apaixonados são traidores, que trabalham em segredo para perpetuar toda a miséria e tormentos que, sem eles, logo teriam um fim – um fim que eles querem impedir, da mesma maneira que, antes deles, seus pais fizeram.

Chegando, porém, o momento da voluptuosidade, toda a brincadeira, toda a alegria graciosa e doce desapareceram subitamente. O casal tornou-se sério, por quê? Porque a voluptuosidade é bestial, e a bestialidade não ri. As forças da natureza atuam em toda a parte seriamente.

A dissimulação é inata na mulher, tanto na mais esperta como na mais tola. É-lhe tão natural usar dela em qualquer ocasião como a um animal atacado o defender-se com as suas armas naturais; e procedendo assim, ela tem até um certo ponto consciência dos seus direitos: o que faz com que seja quase impossível encontrar uma mulher absolutamente verídica e sincera. É justamente por isso que ela penetra tão facilmente no coração do homem, não sendo prudente tentar vencê-la pela dissimulação.

Os homens entre si são naturalmente indiferentes; as mulheres são, por natureza, inimigas.

Note-se além disso que o homem fala em geral com algumas deferências e uma certa humanidade aos seus subordinados, mesmo os mais ínfimos; mas é insuportável ver com que altivez uma mulher da alta sociedade se dirige a uma mulher da classe inferior, quando esta não está ao seu serviço.

As mulheres não têm nem o sentimento, nem a inteligência da música, como não têm o da poesia ou o das artes plásticas; tudo nelas não é mais do que uma pura imitação, um puro pretexto, uma pura afetação, explorada pelo seu desejo de agradar.

Por consequência, a natureza leva as mulheres a procurarem em todas as coisas um meio de conquistar o homem e o interesse que elas parecem tomar pelas coisas exteriores, é sempre um fingimento, um artifício, isto é, puro enfeite e pura macaquice. Rousseau bem o disse: “As mulheres em geral não gostam de nenhuma arte, não percebem nenhuma e não têm nenhum gênio”. Aqueles que não se detêm unicamente nas aparências, já devem tê-lo notado. Basta observar, por exemplo, o que ocupa e atrai a sua atenção num concerto, na ópera ou na comédia. Ver a sem-cerimônia com que, nos mais belos trechos das maiores obras primas, elas continuam a sua tagarelice.

Deveria se tomar como regra esta sentença de Napoleão I: “As mulheres não têm classe”. Chamfort diz também com muito acerto: “Elas são feitas para comerciarem com as nossas fraquezas, com a nossa loucura, mas não com a nossa razão. Existem, entre elas e os homens, simpatias de epiderme, e muito poucas simpatias de espírito, de alma e de caráter”.

A natureza, separando a espécie humana em duas categorias, não fez quinhões iguais. Foi isto o que, em todos os tempos, pensaram os antigos e os povos do Oriente; faziam uma ideia muito mais clara do papel que convém às mulheres, do que nós fazemos com a nossa galantaria à antiga moda francesa e a nossa estúpida veneração, a qual é a expansão mais completa da tolice germano-cristã. Isto não serviu senão para torná-las tão arrogantes e tão impertinentes como são: muitas vezes me fazem pensar nos macacos sagrados de Benares [ou Varanasi, cidade indiana onde os macacos são venerados e andam livremente pelas ruas], os quais têm tanta consciência da sua dignidade sacrossanta e da sua inviolabilidade, que julgam que tudo lhes é permitido.

Todos nós, pelo menos durante um certo tempo, e a maior parte quase sempre, vivemos na poligamia. Se todo o homem tem necessidade de muitas mulheres, é inteiramente justo que ele tenha a obrigação de se encarregar de algumas delas; estas serão, por esse mesmo fato, reduzidas ao seu verdadeiro papel, que é o de um ente subordinado, e então veremos desaparecer deste mundo a dama, esse monstro da civilização europeia e da tolice germano-cristã, com as suas ridículas pretensões ao respeito e à honra; acabavam as damas, mas também acabavam essas infelizes mulheres, que enchem agora a Europa!

É evidente que a mulher é por natureza destinada a obedecer. E a prova está em que aquela que se vê colocada neste estado de independência absoluta, contrário à sua natureza, liga-se imediatamente a qualquer homem por quem se deixa dirigir e dominar, porque tem necessidade de um amo. Se é nova, toma um amante; se é velha, um confessor.

Assim, a tarefa do romancista não é a de nos contar grandes acontecimentos, mas sim a de tornar interessantes as coisas pequenas.

Quando chega o momento de proceder por atos e é necessário demonstrar a fé com grandes abnegações e duros sacrifícios, é então que se vê aparecer toda a fraqueza. Quando um homem medita seriamente um delito, já faz uma brecha na moralidade pura.

É extremamente raro que um homem veja toda a sua espantosa malícia no espelho das suas ações. Ou por acaso vocês julgam em verdade que Robespierre, Bonaparte, o imperador de Marrocos, os assassinos, sejam os únicos tão maus entre todos? Não percebem que muitos fariam outro tanto, simplesmente se o pudessem?

O nosso mundo civilizado não passa de um grande baile de máscaras.

O médico vê o homem em toda a sua fragilidade; o jurista o vê em toda a sua maldade; o teólogo, em toda a sua imbecilidade.

Assim como basta uma folha a um botânico para reconhecer a planta inteira, assim como um osso único bastava a Cuvier para reconstruir todo o animal, assim uma única ação característica da parte de um homem pode permitir que se chegue a um conhecimento exato do seu caráter, e por consequência reconstituí-lo até certo ponto, ainda mesmo que se trate de uma coisa insignificante;

(…)porque nos negócios mais importantes, os homens estão em guarda; nas coisas pequenas, pelo contrário, seguem a sua natureza sem reparar muito.

Deixar transparecer cólera ou ódio nas palavras ou no rosto, é inútil, perigoso, imprudente, ridículo, comum. Não se deve revelar a cólera ou o ódio senão por ações. Os animais de sangue frio são os únicos que têm veneno.

Se alguém tem muito valor real aos nossos olhos, é necessário ocultar-lhe, como se fosse um crime.

Os amigos se dizem sinceros, mas são os inimigos que o são; assim devíamos tomar a crítica destes como um remédio amargo, e aprender com eles a nos conhecermos melhor.

A vaidade torna falador, o orgulho torna silencioso.

Todas as vezes que um homem morre, é um mundo que desaparece, o mundo que ele tinha na cabeça; quanto mais distinto, claro, importante e vasto é esse mundo, tanto mais horrorosa é a sua desaparição. Com o animal é uma miserável rapsódia ou um esboço de um mundo que desaparece.

O cão, o único amigo do homem, tem um privilégio sobre todos os outros animais, um traço que o caracteriza: é aquele movimento de cauda tão benévolo, tão expressivo e tão profundamente honesto. Que contraste a favor desse modo de saudar que lhe deu a natureza, quando o compararmos com as horrorosas caretas que os homens trocam em sinal de polidez; este testemunho de terna amizade e de dedicação da parte do cão é mil vezes mais seguro, pelo menos enquanto ao presente.

O que me torna tão agradável a companhia do meu cão é a transparência do seu ser. O meu cão é transparente como vidro.

Se não houvesse cães, eu não gostaria de viver.

A compaixão para com os animais está tão intimamente unida com a bondade do caráter, que se pode afirmar confiadamente que aquele que é cruel para com os animais não pode ser um homem bom.

(…)à medida que a inteligência cresce, a capacidade de sofrer aumenta na mesma proporção.

O bem estar e a felicidade são, pois, inteiramente negativos, só a dor é positiva [no sentido de chamar a nossa atenção].

Tudo quanto procuramos alcançar nos resiste; tudo tem a sua vontade hostil que é preciso vencer. Na vida dos povos, a história não nos mostra senão guerras e revoltas: os anos da paz não parecem senão curtas pausas, entreatos, uma vez por acaso. E do mesmo modo a vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o tédio; mas contra os outros homens.

Por toda a parte se encontra um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão.

Mas se todos os desejos, apenas formulados, fossem imediatamente satisfeitos, com que se havia de encher a vida humana, em que se havia de empregar o tempo?

Pode também se considerar a nossa vida como um episódio que perturba inutilmente a beatitude e o repouso do nada.

Ninguém é verdadeiramente digno de inveja, e quantos são dignos de lástima!

O mundo não é o mundo, é o inferno, e os homens se dividem em almas atormentadas e em diabos atormentadores.

Parece-me às vezes que o modo mais conveniente dos homens se dirigirem uns aos outros, ao invés de se tratarem por Senhor, Sir etc., seria este: companheiro de sofrimento, companheiro de misérias, my fellow-sufferer [meu caro sofredor]. Por muito excêntrico que isto pareça, a expressão é todavia fundamentada, lança sobre o próximo a mais verdadeira luz, e lembra-nos a necessidade da tolerância, da paciência, da indulgência, do amor do próximo, sem o qual ninguém pode passar, e do qual por consequência cada um é devedor.

A Arcádia nos viu nascer, a todos quantos existimos, como diz Schiller, isto é, todos nós entramos no mundo, cheios de pretensões à felicidade e ao gozo, e nos ligamos à esperança insensata de vermos realizadas essas pretensões. Mas em breve o destino aparece, empolga-nos rudemente e nos faz ver que nada nos pertence, mas que tudo é dele que tem um direito incontestável não só sobre tudo o que nós possuímos e adquirimos, sobre a nossa mulher e o nosso filho, mas sobre os nossos braços e pernas, sobre os nossos olhos e as nossas orelhas, até mesmo sobre o nosso nariz, em pleno rosto.

Não há nada fixo nesta vida fugidia: nem dor infinita, nem alegria eterna, nem impressão permanente, nem entusiasmo duradouro, nem resolução elevada que possa contar com a vida! Tudo se dissolve na torrente dos anos. Os minutos, os inúmeros átomos de pequenas coisas, fragmentos de cada uma de nossas ações são os vermes roedores que devastam tudo quanto nela há de grande e de arrojado… Não se deve levar nada muito a sério na vida humana; a poeira não o merece.

Se foi Deus que fez este mundo, eu não queria ser esse Deus: a miséria do mundo me partiria o coração.

Imagine-se um demônio criador; ainda assim estaríamos no direito de lhe gritar denunciando a sua criação: “Como é que tu ousaste interromper o repouso sagrado do nada, para fazer surgir uma tal massa de infelicidade e de tormento?”.

A vida do homem oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio, tais são na realidade os seus dois últimos elementos. Os homens exprimiram isto de uma estranha maneira: depois de terem feito do inferno o lugar de todos os tormentos e de todos os sofrimentos, o que ficou para o céu? Justamente o tédio.

O otimismo não é no fundo senão uma forma de louvores que a vontade de viver, única e primeira causa do mundo, tributa sem razão a si mesma, quando se mira com complacência na sua obra: não é somente uma doutrina falsa, é uma doutrina corruptora. Porque nos representa a vida como um estado desejável, e como alvo da vida a felicidade do homem. Em consequência disso, cada um se imagina como possuindo os direitos mais justificados à felicidade e ao gozo; se esses bens, como aliás é frequentíssimo, lhe não cabem em partilha, crê-se vítima de uma injustiça; e não errou o alvo da sua vida?

No Novo Testamento, o mundo é representado como um vale de lágrimas, a vida como um meio de purificar a alma, e o símbolo do cristianismo é um instrumento de martírio.

O cristianismo é a doutrina que afirma que o homem é profundamente culpado apenas pelo fato do seu nascimento, e ensina ao mesmo tempo que o coração deve aspirar à libertação, a qual não pode ser obtida senão a preço dos mais penosos sacrifícios pelo desprendimento, pela aniquilação de si mesmo, por consequência por uma transformação total da natureza humana.

 

2 comentários em “NOTA LITERÁRIA #10 – A METAFÍSICA DO AMOR E OUTRAS REFLEXÕES (ARTHUR SCHOPENHAUER)

  1. esse texto é desse livro? concordo com algumas reflexões antigas, mas acho que até mesmo os filósofos antigos, se vivessem hoje em dia, também teriam modernizado suas idéias e avaliações. há sim, mudanças no comportamento animal com o passar do tempo e a evolução. Então evoluímos algumas dessas idéias e “desejos” a respeito do que é atraente, como a capacidade de gerar filhos, por exemplo.

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    1. Isso, todas as notas são deste livro. Concordo contigo, com certeza eles mudariam algumas de suas ideias, mas a essência da atração acredito que continua a mesma, a questão é que não fazemos isso conscientemente.

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