SENTINDO DEUS

Nesta semana senti Deus. Não pode ser outra coisa a não ser algo transcendente. Eu estava finalizando a biografia de Nelson Rodrigues e, de repente, aquela leitura confessional me fez arrepiar-me. E a cada frase lida era um soco na alma. Era como se o Nelson estivesse ali comigo, do meu lado; e através disto tudo pairava um sentimento inexplicável, mas forte e insano. Não é demagogia, aconteceu, eu senti tudo, e foi uma das sensações mais profundas que tive na vida. Como pode? Eu sempre fui tão cético e racional, mas estas sensações são inexplicáveis. Tudo bem, vai vir o idiota do objetivismo e dizer que tudo se trata de reações químicas que acontecem em nosso corpo, porém, o que eu sinto só eu sinto, o que eu faço com este sentimento só eu faço, o que essa reflexão me proporciona nada pode explicar, pois transcende a realidade. Nelson Rodrigues diria que encontrar Deus lendo suas confissões é quase blasfêmia.

Tenho um amigo católico que me contou um de seus encontros com Deus. Ele estava em casa, sozinho, deitado na cama no escuro. Inesperadamente um medo implacável lhe acometeu o fazendo entrar em desespero. Nada fazia com que aquele medo fosse embora. Então ele rezou, pediu proteção, e, como se fosse mágica, o medo foi substituído por uma sensação de felicidade e segurança. Em suas palavras: “Senti que Deus estava comigo e nada poderia me abalar. Nada!” O quão forte é a fé? A fé é insuperável. A fé transcende a carne.

A verdade é que a vida é um escândalo; e vivê-la é sofrer, é aceitar a tristeza, a angústia, a solidão e o tédio. Deus ajuda nesta aceitação. Às vezes desejo me sentar e conversar com alguém no qual posso confiar. Dá uma vontade de chorar, berrar e lamentar, quero expor tudo que me anseia, quero dividir o peso da solidão e da angústia de viver. Mas como é difícil achar um par para fazer isso. Descobri que até hoje não encontrei ninguém, pois, como dizia Dostoiévski, há segredos que escondemos até de nós mesmos. Até para escrever me ponho amarras, o que há comigo? Devo deixar de escravizar minha alma, entretanto, esta é uma tarefa que podemos levar uma vida inteira para aprender, e são poucos os homens que conseguem cumpri-la.

Esta consciência demasiada e este desejo humano de tentar entender tudo é o que nos leva à loucura. E como estamos enfados de informação a todo tempo, quando raramente conseguimos parar e olhar para dentro de nós, vemos o vazio, e é nesta hora que muitas vezes começa o desespero. “O que eu fiz na minha vida?”, “Eu sou alguém de sucesso?”, “Será possível achar um amor para a vida inteira?”, “Sou um fracasso?”, “Qual o sentido de tudo isso?”. Tem dias que tenho uma vontade avassaladora de mudar o mundo, faço planos, desenvolvo as ideias, me debruço sobre elas, perco horas e horas. Me sinto tão vivo; tenho a sensação de estar no lugar que era para eu estar desde minha concepção. Há outros dias que penso no quanto sou fracassado, no quanto eu errei, no quanto eu sou nada. Tudo é muito simples e complexo, basta a nós aceitarmos.

Pode parecer simplista encontrar Deus lendo um livro, deitado na cama, numa terça-feira à noite, mas a complexidade do que senti é inexplicável. Nelson dizia que Deus só visita igrejas vazias. Faço a analogia com nós: quando enxergamos o vazio da nossa igreja, há uma possibilidade grande de Deus estar ali. Só sinta.

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo.”

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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