UM CORAÇÃO QUE PULSA EM MEIO A CORAÇÕES APÁTICOS

Estive pensando sobre o ato de escrever. O que me leva a escrever? O que faz com que eu me debruce sobre a mesa do computador e digite letras que formam palavras das quais possuem um significado? Escrevo para os outros? Qual a minha pretensão ao escrever? Aliás, há alguma pretensão nisso? Vos digo, escrevo simplesmente pelo fato de que no exato momento que reflito e filosofo, e consigo transportar isso para fora da minha consciência/inconsciência e colocar no papel — ou nos algoritmos da internet —, a vida vale a pena. Parece ridículo falar que a vida vale a pena apenas por escrever, mas é sincero, já que grande parte da nossa jornada é sofrimento e angústia por estar vivo e não saber para onde estamos indo.

Posso estar escrevendo atentos e lamentos, mas escrever me faz sentir algo que pulsa; é quase como se eu conseguisse conversar com minha alma. Não preciso de plateia, de palmas e muito menos de dinheiro para fazer isso. Faço pelo apreço da própria consciência. No momento em que escrevo, me sinto realmente livre; quase um Deus do meu mundo.

Como dizia Bukowski: “escrevo para não enlouquecer”. Todos nós temos tantas coisas guardadas, tantas histórias, tantos pudores, tantos amores, tantos rancores, tantos inimigos, tantas teorias, tantos medos. É preciso ter uma válvula de escape para continuar, pelo menos com um pouco de paz de espírito. Já basta o mundo maquiado em que vivemos, onde você pode ser criminalizado simplesmente por expressar uma opinião que ecoa a tempos vindo da alma, ou seja, algo espontâneo, algo verdadeiro.

Escrevi um texto tempos atrás dizendo que a espontaneidade salvará a humanidade, mas tenho medo que a contemporaneidade a destruirá antes, justamente por nos prender na pior prisão de todas: aquela que cerceia o pensamento. Nelson Rodrigues se dizia um ex-covarde, pois à medida que foi se achando em sua arte, apenas expressou o que guardava no fundo da alma, espontaneidade pura. Dostoievski a mesma coisa. Tem beleza maior que alguém sendo completamente sincero consigo mesmo? Acredito que não. Nós sentimos quando algo vem da alma ou apenas do marketing contemporâneo.

Não me entendam mal. Não estou dizendo que temos que ser sinceros a todo momento, pois logicamente iríamos nos matar em duas semanas. O que quero dizer é que no momento em que você se achou no universo, no momento que algo o fez sentir útil pra você mesmo, seja verdadeiro. Seja você escrevendo, pintando, tocando, lendo, jogando, debatendo, rindo, conversando.

Tudo isto me leva a questionar se todos temos uma vocação a qual fomos agraciados por um Deus ou pelo acaso, e resta apenas a nós encontrarmos esta habilidade sacra no vasto mar de sentimentos que nos cerca. Talvez não seja tão difícil achá-la. Qual foi o momento que você ganhou potência de agir? Qual foi o momento que você não quis que terminasse? Qual foi o momento que fez sua vida valer a pena? Qual foi a última vez que você sentiu seu coração pulsar em meio a corações apáticos? Pronto.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

2 comentários em “UM CORAÇÃO QUE PULSA EM MEIO A CORAÇÕES APÁTICOS

  1. Belíssimo texto Gui, tocou profundo na minha alma nesse momento, sinto igual a vc, não tenho nada acrescentar, a no ser o que vc mesmo disse; vamos deixar viver aquilo que nos faz felizes, que faz a vida valer a pena, independente da aprovação alheia, independente do bem e do mal, do certo e do errado, do que faz sentido ou não para a maioria. (Importante que faça sentido dentro…)Obrigada…! Nem imagina como foi bom te ler nessa manha fria onde os (afazeres) e obrigações tantas vezes oprimem nossas reais vocações e desejos.Gosto da espontaneidade e tenho medo da contemporaneidade vazia e apática como vc disse e eu, aqui, gostei.Escrevemos para saber quem somos, penso.. (ainda bem que no estamos sozinhos nessa empreitada literária de autoconhecimento…) Flores!

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