QUEM É TEU MESTRE?

A história de hoje aconteceu mais ou menos na época do “me bate que eu tô louco”. Mas foi alguns meses depois. O lugar também era o mesmo: Sociedade Cruzeiro. Porém, não lembro o nome da festa. Lá estava eu, mas desta vez não estava bêbado, só meio bêbado. O salão estava abarrotado de gente. Gente de tudo que é tipo credo e lugar. Às vezes era possível tomar um susto caminhando entre a multidão e se deparar com uma rodinha de garotos que odiavam a minha galera. Não sei como é na cidade grande, mas em cidade pequena, criam-se rixas entre escolas, bairros, grupos de amigos e etc. Sabe aquela turma que ama arrumar briga por nada: “tá me encarando, ô merda? Baixa a bola e vai quieto!” Eles eram exatamente assim: encarou, olhou, passou perto, já era motivo para uma querela das boas. Quando envolvia mulher então, nem se fala…

Nesta noite havia uma guria, era baixinha, devia ter no máximo 1,60 m, cabelo preto e encaracolado, uma pele branquíssima, olhos verdes, a ainda tinha um jeitinho tímido. Me atraiu na hora. Se não me engano uma amiga dela veio até mim e disse que eu tinha chance. Puta merda! É hoje que eu beijo alguém que eu poderia apresentar para minha família – não que eu quisesse apresentá-la, mas entendam que minha aparência na época não ajudava muito, na verdade não ajudava nada, e a guria era bonita. Como se interessou por mim? Devia ser por causa da mistura de álcool, escuridão e barulho.

Só sei que fiquei com ela. A agarrei em um canto da festa e senti que a noite valera a pena. Pelo menos eu achava que valera até aquele momento. Continuei a beber, e quando eu bebo em uma festa, acontece algo surpreendente: eu fico extremamente hiperativo. Falei para a morena que ia no banheiro e me perdi. Enquanto eu rodava o ambiente, percebi que alguém me seguia. No começo até achei que poderia ser coincidência, porém, quando me virei e encarei o sujeito, vi que aquele olhar de psicopata a me fitar não poderia ser coincidência. Ele estava de braços cruzados, vestia um moletom preto, calça jeans com correntes e tênis All Star. Seu cabelo era comprido e amarrado por um elástico. Nunca até aquele momento um cara de no máximo 1,70 m com um óculos sem armação me causou tanto pavor. Eu tinha e ainda tenho um medo terrível de apanhar.

Mas eu conhecia aquele cara de algum lugar… de repente uma epifania: ele era lutador de Kung Fu. Foi como se o medo dobrasse dentro do meu corpo. Lembrei de tê-lo visto treinando no lago São Bernardo, um dos lugares mais bonitos da cidade. Na época eu também fazia Kung Fu, mas era um novato; havia começado há três meses apenas. Tomaria um pau do baixinho com cara de psicopata. E até aquele momento eu não sabia o porquê ele estava me seguindo. Foi quando voltei para a morena e expliquei a situação, ela só me disse: “eu ficava com ele!” No mesmo instante entendi tudo: ele não aceitou o fora que levara e agora achava que ela ainda era dele. Aliás, era muito pior do que eu pensava. Homens são capazes de cometerem loucuras por causa de mulheres, ainda mais aqueles que possuem um sentimento de amor não correspondido. Onde que fui me meter? Puta merda!

Não consegui mais ficar com a morena. Só enfatizei: “te resolve com esse psicopata, outro dia a gente fica.” Quando me distanciei dela, senti alguém tocar meu ombro. Antes de virar-me já sabia quem era e o motivo do “afago”. Respirei fundo e me virei. Lá estava aquele louco: de braços cruzados e me encarando como se eu fosse o algoz que roubara sua princesa de seu castelo. Ele começou a falar calmamente: “Eu vi que tu ficou com a minha garota. Isso é sério, cara! Te dou apenas três opções: 1) passar por ela e fingir que não vê; 2) hospital; ou 3) cemitério. E mais uma coisa: EU SEI QUEBRAR PESCOÇO!” Ele disse tudo isso numa calma ímpar, dando ênfase na sua habilidade de quebrar pescoço. Ele esperava duas coisas de mim: raiva ou medo. Não aconteceu nem um, nem outro, pelo menos não externamente, pois por dentro eu estava me borrando de medo. A primeira coisa que me surgiu na mente eu falei: “Quem é teu mestre?” No Kung Fu, o treinador é chamado de mestre. Ele nunca esperaria essa pergunta; foi como se eu tivesse feito ele brochar no meio do ato sexual. O louco até tentou voltar com sua sagacidade de homem traído, mas repeti a pergunta. Até que ele respondeu. Comecei a falar da minha experiência no Kung Fu e até pedi para ele me ensinar a técnica de quebrar pescoço. Ele percebeu que eu não era um cuzão, eu acho.

No fim, não nos tornamos amigos, mas escapei de uma surra homérica e ainda consegui umas dicas de Kung Fu. Às vezes fico pensando como essas coisas podem acontecer comigo? Quem em sã consciência perguntaria “quem é teu mestre” naquela situação? Moral da história: 1) dá para escapar de uma surra surpreendendo seu inimigo sem usar violência; 2) se você é feio e está na adolescência, aproveite a escuridão e o barulho das festas para conseguir ficar com uma guria razoável, mas, mesmo assim, muito mais do que você esperaria conseguir; e 3) Se um lutador de Kung Fu quiser te encher de porrada, faça a pergunta certa e na hora certa.

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