ESCRAVO DO DESEJO

Ele é um cara gente boa, metido a boa praça; chama todo mundo de “campeão”, tem dois filhos e se separou a mais ou menos um ano. Tinha dois celulares na época que era casado, um para usar no “modo casado pai de família”, e o outro para o “modo solteiro à procura de meninas.” Suas reclamações referentes à sua esposa eram frequentes, claro que ela era sempre a culpada de tudo: era obsessiva, neurótica e não tinha confiança nele, por isso ele a traía. Acredito que essa justificativa tirava o peso de sua consciência.

Enfim, conseguiu terminar o casamento depois de dez anos. Agora, segundo ele, estava livre para ser feliz, desvencilhado das amarras de uma louca. Ela realmente poderia ser uma louca, quem sou eu para dizer o contrário? Mas lá foi ele ser “livre”, e agora sim, poderia realmente aproveitar a vida de solteiro já que começou a namorar com 16 e casou com 20. Suas cantadas em jovens aprendizes no trabalho geravam conflitos, pois muitas o achavam nojento. Claro, ele pegava o celular delas e depois as chamava no whatsapp. Imagine um cara de 33 anos querendo uma menina com 16 ou 17 no ambiente de trabalho. É claro que isso acontece regularmente em qualquer organização, mas o problema principal era o modo descarado. A fama se espalhou rapidamente na empresa. Em vez de trabalhar, ficava quase o dia inteiro no celular conversando com mulheres. Quando conversava comigo, o papo era sempre o mesmo: “estou pegando fulana, transei com ciclana, amanhã vou pegar outra e já tenho esquema para o final de semana.”

“Como tu aguenta?” Eu perguntava. E ele dizia, vangloriando-se e gesticulando o braço mostrando o bíceps: “aqui tem, piá!” Eu tentava de novo: “cara, é fácil comer várias mulheres, eu tô perguntando como tu aguenta ser escravo do desejo e achar isso bonito ainda?” Ele ficava em silêncio. Não havia outra resposta. Ele é um cara totalmente escravo de seus instintos. A vida dele é isso: satisfazer o desejo. E o vazio de uma alma destas é imenso, logo, a tentativa de preenchê-lo recai na luxúria. Chegou a ficar com meninas de 17 anos e se dizia apaixonado, prometia o mundo para elas. E era engraçado, pois até ele acreditava em sua mentira. Ele vinha até mim e eu pensava: “é óbvio que não vai dar certo, para de mentir pra ti mesmo.”

Sempre tem uma e mais uma e outra e mais outra, festinhas e mais festinhas, é como um cão que corre atrás do próprio rabo mas nunca o alcança. Ao mesmo tempo que é engraçado, é triste, pois conseguimos enxergar uma carência não suprida.

Dias atrás ele chegou pra mim e disse: “vou aproveitar minha vida até a mulher certa aparecer.” Eu falei: “não existe a mulher certa, tu não vai deixar de sentir desejo só porque uma outra mulher vai te amar e tu amar ela.” Ele me olhou com certa estranheza e eu enfatizei: “quem te mentiu que existe a mulher que vai mudar um homem por completo? Tu tem que se mudar primeiro, senão vai ser sempre a mesma coisa: tu conhece uma pessoa, vocês ficam, transam, se apaixonam, teu desejo vai diminuindo por ela ao longo do tempo, o que é normal, e aí tu vai trair e voltar para a vida que está agora.” Ele discordou, óbvio.

O que me assusta em tudo isso é o fato de alguém não conseguir relaxar, ficar em paz, aceitar a vida, aceitar a angústia, aceitar a tristeza, logo, para fugir da consciência, a pessoa se joga numa piscina vazia. Porém, o pior não é se atirar na piscina vazia, mas sim ver a piscina vazia com água até a borda.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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