NOTA LITERÁRIA #08 – CARRIE, A ESTRANHA (STEPHEN KING)

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Carrie, A Estranha foi o quarto romance escrito por King, mas foi o primeiro a ganhar notoriedade e a mostrar o talento de King para o mundo. Um romance em que o autor começou a escrever, e, logo depois, jogou o rascunho na lixeira, pensando que aquela história sobre uma menina estranha que passou a ter poderes telecinéticos após uma primeira menstruação traumática fosse dar em nada. Ledo engano.

Sua esposa, que merece um prêmio, foi na lixeira, pegou o rascunho entre cinzas de cigarro, o leu e disse para o marido continuar a escrevê-lo. Ele continuou…

Acredito que seja um dos menores livros do King, mas a história compensa. Principalmente por juntar temas como fanatismo religioso, adolescência conturbada e poderes paranormais. Eu esperava uma qualidade menor, principalmente nos personagens ou no enredo, porém, me surpreendi como King estruturou a trama: havia uma narrativa da história em si, em tempo real, mas simultaneamente, como em quase todas suas obras, ele traz a narrativa vista de outro modo, como vista de um livro científico que estuda a telecinesia; ou, como no diário de Sue Snell.

É como ele mesmo fala: “embora seja impossível transformar um escritor ruim em competente, e embora seja igualmente impossível transformar um escritor bom em um incrível, é sim possível, com muito trabalho duro, dedicação e conselhos oportunos, transformar um escritor meramente competente em um bom escritor.”

King nunca será um escritor ruim. Ele é o próprio selo de qualidade dele mesmo. E como escreve apenas ficções, qualquer livro será no mínimo “bom”.

Seguem abaixo as notas que marquei:

E isso a deixaria terrivelmente sem jeito, ela sabia. Nua, má, maculada com o pecado do exibicionismo, a brisa soprando lascivamente por trás de suas pernas, incitando a luxúria.

Desabotoou o pesado sutiã de algodão e o deixou cair. Seus seios eram brancos como leite, empinados e macios. Os mamilos tinham um tom claro de café. Afagou-os e sentiu um arrepio percorrê-la. O mal, ah, era sim, mamãe lhe dissera que ali havia Coisa. A Coisa era perigosa, antiga, inefavelmente má. Podia tornar a pessoa fraca.

Odiava aquela cara, aquela cara sem graça, idiota e bovina, os olhos insípidos, as espinhas vermelhas e brilhantes, os ninhos de cravos. Odiava sua cara mais que tudo.

Nas palavras mais pungentes do futuro padrasto, “a cara de Margaret parecia a traseira de um caminhão-tanque e o corpo era de acordo”.

Jesus me olha da parede, Rosto frio feito pedra, E se sou por ele amada Como ela sempre diz que sou, Por que me sinto tão só?

— Mas quase ninguém descobre que seus atos, na verdade, magoam realmente os outros! Ninguém fica melhor, as pessoas só ficam mais espertas. Quando fica mais esperto, você não para de arrancar asa de mosca, só imagina um motivo melhor para fazer isso.

Ela não sabia se seu dom vinha do senhor da luz ou das trevas,

(sinto muito mamãe mas não consigo sentir muito)
Mas a expressão “sinto muito” é o xarope das relações humanas.

A primeira coisa que impressionou Carrie quando eles entraram foi o Glamour. Não o glamour, mas sim o Glamour. Belos vultos circulavam com um farfalhar de gaze, renda, seda, cetim. Pairava no ar um perfume de flores; o olfato não parava de se surpreender com isso. Meninas com as costas de fora, com decotes tão cavados que mostravam até a junção dos seios, com corpetes estilo Império. Saias longas, escarpins. Ofuscantes paletós brancos de traje a rigor, faixas, sapatos pretos engraxadíssimos.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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