ME BATE QUE EU TÔ LOUCO!

O primeiro porre a gente nunca esquece. Quem nunca bebeu de estômago vazio ou misturou diversos tipos de bebidas? Jovem é uma merda! Adolescente então, nem se fala. Naquela noite fria de inverno, não lembro exatamente o ano, mas eu devia ter os meus 15 ou 16 anos; estava no auge da minha feiura: com espinhas na cara, magro feito um fumador de craque, desengonçado como um terneiro recém-nascido e para completar, usava aparelho nos dentes. Meu Deus, como uma guria em sã consciência ficaria comigo? Eu estava condenado à castidade eterna, mas eu era um cara legal, pelo menos.

Naquela noite aconteceria o Baile dos Estudantes, ou seja, era um baile com trajes sociais. Acredito que foi uma das primeiras vezes que usei terno. Como era de costume, fazíamos um “aquece”¹ antes das festas, e, para este baile, não foi diferente. Lembro que o aquece foi na casa do meu amigo Vicente, que tinha uma garagem espaçosa e morava no centro da cidade. Quando cheguei lá, comecei a beber Natasha, uma vodka vagabunda que se consumida sem mistura, pode causar sérios danos neurais e consequentemente danos físicos. E sim, nesta noite, eu bebi este veneno puro, ou seja, no fundo eu sabia que aquilo não ia acabar bem, mas de novo: jovem é uma merda.

Comecei a perder a consciência no aquece; e, de tanto que bebi, lembro de apenas alguns flashes a partir daquele momento, então, tudo que vou contar a partir de agora, foi relatado pelos meus amigos e familiares.

Saímos do aquece perto da meia-noite. Quando chegamos no local do baile a fila estava enorme. Claro que quando entrei na festa, já estava louco. Os flashes nos quais me lembro dentro do baile foi de beber whisky com coca-cola, abraçar pessoas que eu não conhecia e dançar numa roda de meninas que ficavam rindo da minha cara. De resto, não lembro mais nada. Deve estar na Zona Morta (livro de Stephen King). Que sensação estranha de acordar no outro dia e não nos lembrarmos de quase nada.

Segundo alguns amigos meus, depois de um certo tempo passando vergonha dentro da festa, eu resolvi passar vergonha fora dela. Palavras deles: “Cadê o Guigo (meu apelido)? Vamos procurar ele.” Receberam a notícia que havia um homem de terno deitado na calçada que parecia estar morto. Quando chegaram lá, constataram o fato: lá estava eu, esticado na calçada, olhando para as estrelas, e o melhor: tinha uns caras saltando por cima de mim, como se fosse uma competição. Tenho poucas lembranças deste momento; lembro que foi reunindo cada vez mais gente para ver aquela cena.

Meus amigos me levantaram da calçada, mas óbvio, só depois de tirarem muito sarro daquilo. Um deles, o Fernando, tinha uma saveiro na época. Eu não tinha condições de ficar em pé. Eles contam que me pegaram em umas quatro pessoas, contaram até três e me jogaram para dentro da carroceria da saveiro como se eu fosse um saco de bosta. Como eu queria ter visto isto em terceira pessoa. Se não me falha a vaga lembrança, dois dos meus amigos foram comigo na carroceria me segurando para eu não cair de lá. Lembro ainda que a cada curva que a saveiro fazia, um jato de vômito saía de mim.

Ao chegarmos na minha casa, me tiraram da saveiro e me ajudaram a caminhar até a entrada. O Fernando bateu à porta e tentou imitar a minha voz grave: “Mãe, abre a porta.”. Eles dizem que no momento que minha mãe começou a girar a chave, eu me empertiguei, tentando imitar alguém que não está bêbado. Quando me deparei com minha mãe na minha frente, me desestabilizei de novo e disse pra ela: “E aí mano brow!”

Imaginem a cara da minha mãe ao me ver naquele estado deprimente e falando besteiras. Ela agradeceu aos guris por terem me trazido de volta ao lar e me mandou direto para o banho. É óbvio que eu não conseguiria tomar banho sozinho — por isso que mãe vai para o céu. —. Ela me colocou embaixo do chuveiro, mas eu estava hiperativo, não parava de gesticular e me mexer feito um retardado. Imediatamente ela começou a me dar tapas e eu gritava sem parar: “ME BATE QUE EU TÔ LOUCO”. Meu pai ria muito assistindo a cena.

Acordei no outro dia de pijama, embaixo das cobertas com cheiro de amaciante, mas com uma dor de cabeça terrível, quase insuportável. Claro que precisei ouvir todo o sermão da minha mãe, e com razão, me relatando tudo que fiz na noite passada. Naquele momento os flashes palpitavam no cérebro; e foi assim, com cada um que conversava sobre o baile, vagas lembranças vinham à tona. Com certeza esta história entrou para uma das mais contadas quando me encontro com meus amigos. E como não seria?

Aprendi três lições desta bebedeira: (1) Como é bom ter amigos; (2) Como é bom ter família; e (3) Deus protege os bêbados, pois como é possível eu voltar pra casa com carteira, celular e “quase” inteiro depois de tudo que aconteceu? Reflitam…

1“Aquece” – Expressão usada para denominar uma ação entre amigos cujo objetivo é beber até ficar louco algumas horas antes de alguma festa.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

2 comentários em “ME BATE QUE EU TÔ LOUCO!

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