A ETERNA INSATISFAÇÃO HUMANA

O ser humano é um bicho insustentável. Estamos sempre atrás de uma realização para satisfazer nosso estado de espírito, nosso ego insuperável. O problema é que nunca estamos plenamente realizados, me parece que sempre falta algo para preencher o vazio que insiste em permear nossa alma. Dostoiévski enfatizou que há no homem um vazio do tamanho de Deus, ou seja, infinito.

Quando alcançamos um objetivo, uma felicidade, um prazer, logo a maldita consciência te lembra: “Acabou! Foi-se o momento, o instante, o lapso de realização. Agora vá atrás da próxima!” E eu entendo que isso é uma forma exímia de sobrevivência. Este sentimento de falta não nos deixa ficar parados, inertes e inúteis. Se por um lado, esta insatisfação plena do humano nos trouxe onde estamos hoje — com tecnologia, ciência, diminuição do sofrimento físico —, por outro, nos trouxe a fome eterna de auto realização.

Todos já passaram por um momento de esplêndido prazer, que logo em seguida se transforma naquele sentimento de vazio, de nada, e tu se pergunta: “e agora?” Por isso Epicuro (341–271 a. C.) enfatizava que a busca por prazer desenfreada nos torna hedonistas inúteis, simplesmente porque fazer apenas o que o seu corpo clama, o levará à degradação do ser, a uma tristeza inimaginável, não há outro caminho. Se tornará um animal como outro qualquer, respeitando apenas o instinto selvagem, mas é pior, porque a tua consciência te pune.

Existe alguma maneira de parar com esta insatisfação perene? Bem, eu tenho asco a qualquer fórmula que busque idealizar o comportamento humano, que é algo tão subjetivo e relativo de pessoa para pessoa. Por isso sempre lembro: não acredite em gurus, ou seja, não acredite em gente que diz ter uma chave única para o sucesso ou para a felicidade. Se esta chave existe, é você que deve moldá-la, e é óbvio que a chave servirá apenas para você.

É um saco nunca relaxar. Ficar correndo atrás de realizações a todo momento, como um cão que corre atrás do próprio rabo, mas nunca o alcança. Por experiência: a vida me pareceu melhor quando aceitei o fracasso do ser humano, no sentido que nunca seremos plenos em todas as nuances da vida, sempre faltará algo, mas e daí? O mundo não é um parque de diversões mesmo, e se fosse, também ficaríamos injuriados, porque nós somos humanos. O que há para se fazer senão levantar, conseguir sobreviver, descobrir o que gosta, amar pessoas impossíveis, ser feliz de vez em quando, ficar bêbado, experimentar drogas, escrever rascunhos de um romance que insiste em não ter fim, transar até se esgotar, gozar, refletir sobre a vida, e é claro, tudo isso com uma dose de sofrimento, e no fim, morrer?!

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

5 comentários em “A ETERNA INSATISFAÇÃO HUMANA

  1. Adorei o devaneio.
    Apesar de saber que nunca me sentirei plena, a insatisfação não me incomoda – empurra-me, motiva-me a alcançar uma versão diferente (melhor) de mim própria ou parte de mim; de buscar sensações diferentes, limiares,…
    Sinto a insatisfação como uma amada pelo potencial que tem e como odiada pela frustração que me provoca.
    Que monotonia seria se tudo estivesse no seu devido lugar!

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  2. O vazio pode ser o infinito dentro da gente. O corpo, uma prisão e, ao mesmo tempo, o templo da alma, um lugar para refletir, para cultuar o universo dentro da gente, sem a necessidade de “intermediários“. As polaridades são essencialmente a mesma coisa em graus diferentes. Vazio e plenitude, são essencialmente a mesma coisa. É o que diz a filosofia hermética e faz sentido no mundo atômico. O macro se projeta no micro, mas, o macro, ultrapassa as fronteiras do micro… Por isso, sentimos saudades! Sinto esse vazio desde criança, essa saudade sem explicação…Mas, o vazio pode ser qualquer coisa e a plenitude tbm… O vazio tbm é possibilidade, (tudo cabe no vazio…) Que seria da poesia de Fernando Pessoa, sem o vazio que ele mesmo sentia e retratava na sua poesia? Penso que há beleza no vazio… Dostoiévski tinha razão; é infinito…, assim como Tolstói, aliais, esses russos são foda né! Já leu; a morte de Ivan Ilicht? e curtinho é dramático… faz pensar nessas coisas que nunca tem fim e em tudo o que fazemos e nos faz o mínimo sentido… Não nos tornamos niilistas por pensar assim… penso eu, pelo contrário, como vc mesmo disse, somos nós que temos que girar a chave e perceber o universo dentro da gente, sem se perder na imensidão do aparente vazio existencial e bem sei, não é fácil…! -Lembrei desse livro enquanto lia teu texto, muito bom por sinal.

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    1. Que beleza de comentário! Com tanta superficialidade no mundo, é gratificante ler isso. Eu ainda não li Tolstói, mas está na minha lista. “Penso que há beleza no vazio” Sim, há muita beleza no vazio. Volte sempre.

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  3. Essa insatisfação é terrivel, a mente não comporta… A vontade que dá é a de sair de mim, me olhar, me destruir, me refazer, me repensar e nem mesmo assim estaria eu satisfeita!

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