NOTA LITERÁRIA #03 – MEMÓRIAS DO SUBSOLO (FIÓDOR DOSTOIÉVSKI)

Acabei de finalizar uma das obras mais sinceras e profundas que já li. Mas isso já era esperado de um filósofo trágico como Dostoiévski. Tive muita dificuldade de ler Crime e Castigo – outro clássico do mesmo autor -, principalmente por se tratar de um livro tenso, pois nos coloca na consciência de um protagonista comum que é capaz de assassinar uma velha por um motivo fútil. Não foi um livro prazeroso de ler, mas isso não quer dizer que o livro é ruim, pelo contrário, ele te leva nas partes mais sórdidas da tua alma e mostra que qualquer ser humano é capaz do mal.

Memórias do Subsolo é diferente, a leitura não é tão pesada, mas é deveras profunda. Não existe Dostoiévski sem aprofundamento da alma. E enquanto o lia, pensava: “não há uma escrita mais sincera do que a do Dostoiévski…” É surpreendente a forma como descreve o que pensa, a forma que coloca seu próprio pensamento em dúvida, a forma como soa tão familiar para quem está lendo, mas que eu, por exemplo, não seria capaz de descrever com tamanha maestria e crueza do meu próprio eu.

O livro é dividido em duas partes, sendo que a primeira, Dostoiévski usa para indagar sobre razão e vontade e como funciona a natureza humana; e também de como seria insuportável vivermos apenas com a razão. Na segunda parte, ele conta uma história magnífica, que tenho dificuldades de resumi-la aqui. Pelas Notas (que estão abaixo), pode-se se ter uma ideia. Marquei uma linha de quando começa as Notas sobre a segunda parte.

***Nelson Rodrigues ao ser indagado sobre quais autores indicaria para uma plateia de jovens jornalistas, disse secamente: Dostoiévski. E a pergunta repetiu-se, buscando outros autores, e Nelson apenas proferia: Dostoiévski. Se você nunca teve a experiência de lê-lo,  eu indico a começar por este livro.

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Segue abaixo todas as notas que marquei:

“Além disso, sou extremamente supersticioso; bem, pelo menos o suficiente para respeitar a medicina. (Sou instruído o bastante para não ser supersticioso, mas sou supersticioso.)”

“Mas sabem os senhores em que consistia o ponto mais importante de minha raiva? Toda a questão estava justamente nisso, a maior obscenidade resumia-se a esse fato: de que constantemente, mesmo nos momentos do mais intenso mau humor, eu tinha a vergonhosa consciência de que não apenas não era mau, como nem sequer era um homem amargo, que somente fazia tipo a troco de nada e me divertia com isso. Eu parecia espumar de raiva, mas se alguém me trouxesse algum presentinho e me desse uma xícara de chá com um pouquinho de açúcar eu talvez me acalmasse. Ficaria até comovido, muito embora depois, possivelmente, mostraria os dentes para mim mesmo e de vergonha sofreria de insônia por uns meses. Tal era meu hábito.”

“Não era apenas papel de mau que eu não conseguia fazer, mas de qualquer coisa; nem de mau, nem de bom, nem de canalha. Nem de pessoa honrada, nem de herói, nem de inseto. Agora, vou vivendo em meu canto, tentando infundir em mim mesmo o consolo, maldoso e completamente inútil, de que uma pessoa inteligente não pode, a sério, se fazer passar por nada, mas de que somente um idiota se faz passar por algo.”

“Sim, um homem inteligente do século xix não só deve como é moralmente obrigado a ser um sujeito de preferência sem caráter; uma pessoa de caráter, de ação, é preferencialmente limitada.”

“Aliás, do que pode falar um homem digno com supremo prazer? A resposta: de si mesmo.”

“Juro a vocês, senhores, que ter muita consciência é uma doença; uma verdadeira e perfeita doença.”

“Quanto mais consciência eu tinha do bem e do tal “belo e sublime”, mais profundamente eu me afundava no meu lodo e mais capaz eu era de atolar nele completamente.”

“Eu me envergonhava (talvez até agora me envergonhe); cheguei ao ponto de sentir uma certa satisfaçãozinha secreta, anormal e infame de voltar, então, em mais uma madrugada nojenta de Petersburgo, para o meu canto e ter a forte consciência de que naquele dia novamente fizera alguma obscenidade, de que o que havia sido feito novamente não podia ser desfeito, e no âmago, secretamente, roer-me, roer-me por conta daquilo, fustigar-me e atormentar-me até o ponto em que a amargura tornava-se finalmente numa doçura vergonhosa e maldita, e, finalmente, num definitivo e verdadeiro prazer!

“Eu explico a vocês: o prazer vinha justamente da consciência demasiado clara de minha degradação, o fato de perceber afinal que já chegara ao fundo do poço; de que aquilo era detestável, mas de que não poderia ser de nenhuma outra maneira; de que não havia mais saída, de que jamais conseguiria tornar-me outra pessoa; de que se pelo menos ainda restasse tempo e fé para me transformar em qualquer outra coisa, então certamente não iria querer me transformar; e de que, se quisesse, acabaria não fazendo nada, porque na verdade talvez não houvesse em que se transformar.”

“mas era no desespero que eu encontrava os mais pungentes prazeres, especialmente quando tinha a forte consciência do impasse em que eu me encontrava.”

“Em primeiro lugar, sou culpado de ser mais inteligente que todos ao meu redor. (Eu sempre me considerei mais inteligente que todos ao meu redor e às vezes, acreditem ou não, até me envergonhava disso. Pelo menos a minha vida toda eu como que virava o rosto e nunca pude olhar as pessoas nos olhos.) E finalmente, sou culpado pelo fato de que, se houvesse em mim qualquer generosidade, ela seria para mim apenas mais torturante, pela consciência de sua inutilidade.”

“Mas é justamente em toda essa consciência e vergonha que se encontra a voluptuosidade. “Eu os incomodo”, diz, “perturbo seus corações, não deixo ninguém dormir na casa. Pois então não durmam, sintam vocês também a cada minuto a minha dor nos dentes. Já não sou para vocês o herói que antes pretendia parecer, mas simplesmente um homenzinho vil, um mandrião. Pois que seja! Fico muito contente que vocês tenham me decifrado. Acham desagradável ouvir meus gemidinhos infames? Então que seja desagradável; pois é agora que darei um trinado ainda mais desagradável…”

“Pode por acaso um homem consciente em alguma medida respeitar a si mesmo?”

“Quantas vezes me aconteceu de, por exemplo, ofender-me por motivo algum, de propósito; e às vezes sabia que me ofendera por nada, fazia de conta, mas acabava chegando ao ponto de, no final, realmente e de fato me ofender.”

“Uma vez quis me apaixonar à força; até duas vezes. E sofri, senhores, garanto-lhes. No fundo de minha alma, não acreditava que estava sofrendo, parecia surgir um gracejo, mas mesmo assim sofria, e ainda por cima de uma maneira verdadeira, autêntica; sentia ciúmes, saía de mim… E tudo por conta do tédio, meus senhores, tudo por conta do tédio; a inércia me esmagava.”

“o fruto direto, legítimo e imediato da consciência é a inércia,”

“Mas tente deixar-se levar cegamente por seus sentimentos, sem raciocínio, sem causa primeira, afastando a consciência pelo menos por um tempo; ame ou odeie, apenas para não ficar de braços cruzados.”

“Oh, senhores, eu talvez me considere um homem inteligente apenas pelo fato de que em toda a minha vida não consegui começar nem terminar nada.”

“Mas o que se pode fazer se a única e mais direta função de qualquer homem inteligente é a tagarelice, ou seja, falar nada com nada, conscientemente.”

“E se acontecer da vantagem humana às vezes não apenas poder, mas até mesmo dever consistir justamente em desejar, em alguns casos, o mal, e não o vantajoso?”

“As suas vantagens são o bem-estar, a riqueza, a liberdade, a tranquilidade, e assim por diante; de maneira que um homem que, por exemplo, quisesse clara e deliberadamente ir contra toda essa lista seria, de acordo com sua visão e, é claro, também de acordo com a minha, um obscurantista ou um louco completo, não é?”

“Vocês já repararam que os mais refinados fascínoras eram quase todos senhores dos mais civilizados…”

“No mínimo, a civilização, se não fez o homem mais sanguinário, certamente o fez sanguinário de uma maneira pior, mais abjeta do que antes. Antes ele via no derramamento de sangue um ato de justiça e com a consciência tranquila exterminava quem fosse necessário; hoje em dia, porém, embora consideremos o derramamento de sangue uma obscenidade, mesmo assim cometemos essa obscenidade, e ainda mais do que antes.”

“E de onde é que todos esses sábios tiraram que o homem precisa de uma vontade normal e virtuosa? A partir de que imaginam com tanta segurança que o homem precisa indubitavelmente de uma vontade razoável e vantajosa? O homem precisa apenas de uma vontade independente, custe essa independência o que custar e leve aonde levar. Mas também só o diabo sabe do que a vontade…”

“Nossas vontades na maior parte das vezes são equivocadas por conta de uma visão equivocada de nossas vantagens.”

“Porque se a vontade em algum momento se conciliar com a razão, iremos então raciocinar, e não propriamente querer, já que não se pode, por exemplo, mantendo a razão, querer coisas absurdas e dessa maneira deliberadamente ir contra a razão e desejar o mal a si mesmo…”

“— Sim, senhor, mas é bem aqui que eu vejo um senão! Senhores, perdoem-me por ter começado a filosofar; são quarenta anos de subsolo! Permitam-me fantasiar um pouco. Vejam: a razão, senhores, é uma coisa boa, isso é indiscutível, mas a razão é apenas a razão e satisfaz apenas as capacidades racionais do homem, enquanto a vontade é a manifestação de toda a vida, ou seja, de toda a vida humana, incluindo-se a razão e todos os seus pruridos.”

“Mas repito a vocês pela centésima vez, há apenas um caso, apenas um, em que o homem pode propositalmente, conscientemente desejar para si até o que há de nocivo, de estúpido, até o que há de mais estúpido, a saber: ter o direito de desejar para si o que há de mais estúpido e não ter a obrigação de desejar para si apenas o que há de inteligente.”

“a vontade pode, se assim se quiser, coincidir com a razão, especialmente se não se abusar dela, mas usá-la moderadamente; é útil e às vezes até mesmo louvável. Mas a vontade muito frequentemente, até na maioria das vezes, diverge completa e obstinadamente da razão”

“Penso até que a melhor definição para o homem é: ser que caminha sobre duas pernas e que é ingrato. Mas isso ainda não é tudo; ainda não é esse seu principal defeito; seu maior defeito é sua constante imoralidade, constante, começando do Dilúvio até o período de Schleswig-Holstein dos destinos humanos.”

“Nesse caso, se ele não tiver os meios para isso, inventará a destruição e o caos, inventará sofrimentos diversos e manterá contudo a sua posição! Lançará uma maldição contra o mundo, e, já que apenas o homem pode amaldiçoar (isso é um privilégio seu, que é o principal fator de distinção entre ele e os outros animais), talvez apenas a maldição fará com que atinja seu objetivo, ou seja, realmente convencer-se de que ele é um homem, e não uma tecla de piano!”

“toda a questão humana parece realmente se resumir ao fato de que o homem a todo instante precisa provar a si mesmo que ele é um homem, e não um pedal!”

“Senhores, sou atormentado por dúvidas; permitam que eu as tenha. Vocês, por exemplo, querem afastar um homem de seus velhos costumes e corrigir sua vontade de acordo com as exigências da ciência e do bom senso. Mas como é que vocês sabem que não apenas é possível, mas também necessário reeducar dessa maneira um homem? A partir de que vocês concluem que é tão imprescindível corrigir a vontade humana?”

“O homem adora criar e abrir caminhos, isso é indiscutível. Mas por que razão ele ama com furor também a destruição e o caos?”

“Ele ama o processo de alcançar, mas o alcançar já não ama de todo, o que é, certamente, terrivelmente ridículo.”

“Admito que o dois e dois são quatro é uma coisa magnífica; mas se é para tecer louvores, então o dois e dois são cinco é às vezes uma coisinha das mais adoráveis.”

“Porque talvez o homem não ame apenas o bem-estar. Talvez ele ame em igual medida o sofrimento. Talvez o sofrimento seja para ele exatamente tão vantajoso quanto o bem-estar. E o homem por vezes ama terrivelmente o sofrimento, apaixonadamente, e isso é fato.”

“Bem ou mal, às vezes também é muito bom quebrar alguma coisa.”

“Embora tenha anunciado no início que a consciência, em minha visão, é a maior infelicidade do homem, sei que o homem a ama e não a trocaria por nenhuma satisfação.”

“Vocês creem no edifício de cristal, eternamente indestrutível; ou seja, num para o qual não se possa nem mostrar a língua às escondidas, nem fazer figa com a mão dentro do bolso. E eu talvez tenha medo desse edifício justo por ser de cristal e eternamente indestrutível e pelo fato de que não se pode mostrar-lhe a língua nem às escondidas.”

“Estamos discutindo seriamente; mas se não quiserem me dar a honra de sua atenção, não vou me inclinar. Tenho meu subsolo.”

“Saibam, porém, o seguinte: tenho certeza de que nós do subsolo precisamos ser contidos com rédea curta. Ele pode até ser capaz de permanecer em silêncio por quarenta anos no subsolo, mas se sair à luz ele estoura, e então fala, fala, fala…”

“Há, nas lembranças de qualquer um, coisas que não são reveladas a todos, mas apenas aos amigos. Há ainda aquelas que sequer aos amigos são reveladas, mas apenas a si mesmo, e ainda assim em segredo. Mas há finalmente aquelas que até a si mesmo se teme revelar, e tais coisas qualquer homem decente tem acumuladas aos montes. Chega-se até o seguinte: quanto mais decente é o homem, mais ele as tem.”

“Não quero que nada me limite na redação de minhas memórias. Não vou desenvolver uma ordem e um sistema.”

“Mas poderiam, por exemplo, implicar com o que eu disse e me perguntar: se você de fato não conta com leitores, então por que é que agora faz tais exortações a si mesmo, e ainda por cima no papel? Ou seja, por que dizer que não vai desenvolver uma ordem e um sistema, que vai escrever conforme for lembrando etc. etc.? Por que é que você se explica? Por que se desculpa? — Pois vejam só — respondo eu. Aqui, porém, há toda uma psicologia. Talvez seja pelo fato de que sou um covarde. Mas talvez seja pelo fato de que eu imagino propositalmente um público diante de mim, para me portar de maneira mais decente enquanto estiver escrevendo. Pode haver milhares de motivos.”

“Finalmente: estou enfadado, não costumo fazer nada. Escrever é, de fato, como um trabalho. Dizem que pelo trabalho o homem torna-se bom e honrado. É uma chance, pelo menos.”

 

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“Eu odiava, por exemplo, meu rosto, achava-o detestável, e até mesmo suspeitava que nele havia uma expressão de alguma maneira infame, e por isso, a cada vez que eu aparecia no serviço, esforçava-me terrivelmente para me comportar da maneira mais natural possível, para que não desconfiassem de minha infâmia, e para que meu rosto expressasse a maior nobreza possível.”

““Que seja um rosto feio”, pensava eu, “mas que pelo menos seja nobre, expressivo e, acima de tudo, que seja extremamente inteligente”.”

“de uma maneira doentia, era evoluído, evoluído como deve ser o homem de nosso tempo.”

“Eles de qualquer forma eram todos obtusos e parecidos uns com os outros como um rebanho de carneiros. Talvez somente a mim em toda a repartição parecesse constantemente ser eu covarde e servil; e exatamente por isso também parecia que eu era evoluído.”

“Nós, russos, de um modo geral, nunca tivemos desses estúpidos e lunáticos românticos alemães e especialmente franceses, a quem nada afeta, nem que a terra trema sob seus pés, nem que a França inteira morra nas barricadas, são sempre os mesmos, não mudam por nada e vão todos cantar suas canções lunáticas, por assim dizer, até o fim de suas vidas, porque são uns tolos. Já aqui, na nossa terra russa, não há tolos; isso é sabido; e é nisso que nos distinguimos das terras estrangeiras.”

“Sim, senhor: apenas entre nós o mais perfeito canalha pode ter um coração de todo honesto e ser até mesmo elevado, ao mesmo tempo em que continua sendo, até certo ponto, um canalha.”

“a única possibilidade que eu tinha de sensações exteriores era a leitura. A leitura sem dúvida ajudava bastante: me perturbava, deleitava, torturava.”

“Além disso, fervia em mim a melancolia; uma sede histérica de contradições, contrastes e com isso eu me entregava à perversão.”

“Eu me entregava solitário à perversão, de madrugada, secretamente, com medo, de maneira torpe e com uma vergonha que não me deixava sequer nos momentos mais repugnantes e que nesses momentos chegava a beirar o insulto. Já naquela época eu carregava na alma o meu subsolo. Tinha um medo terrível de que acabassem me vendo, de que me encontrassem, me reconhecessem. Andava por diversos lugares extremamente escuros.”

“humilhação contínua e insuportável oriunda do pensamento, que logo se transformava numa sensação contínua e imediata de que eu era uma mosca diante de todo o mundo, uma mosca nojenta e indecente. Mais inteligente que todos, mais evoluído que todos, mais nobre que todos — e isso era óbvio —, mas uma mosca que constantemente cedia aos outros, que era humilhada por todos e ofendida por todos.”

“Ao olhar para ele, eu me deleitava com a minha própria raiva e… desviava amarguradamente dele toda vez.”

“Pedir dinheiro para Anton Antônitch me pareceu abominável e vergonhoso. Passei até duas ou três noites sem dormir; na época eu geralmente dormia pouco, vivia com febre;”

“Tudo isso não era destituído de uma certa profundidade. Poderia eu concordar com uma perversãozinha simples, vulgar, espontânea, de escrivão, e suportar sobre mim toda essa imundície?! O que é que poderia então nela me seduzir e me fazer sair à noite na rua? Não, eu tinha uma nobre escapatória para tudo…”

“O uniforme talvez estivesse em bom estado, mas eu não podia ir almoçar de uniforme. O pior de tudo é que nas calças, bem no joelho, havia uma imensa mancha amarela. Eu pressentia que somente aquela mancha já me privaria de uns nove décimos de minha dignidade.”

“Os solitários postes de luz faiscavam lugubremente em meio às brumas e à neve como tochas em um funeral.”

“— Veja, Liza, vou falar de mim mesmo! Se eu tivesse uma família desde a infância, não seria como sou agora. Penso nisso com frequência. Então por pior que seja a família, ainda assim são pai e mãe, e não inimigos, não estranhos. Ao menos uma vez por ano demonstrarão amor por você. Pelo menos você sabe que está em casa. Já eu cresci sem família; por conta disso, certamente, é que me tornei assim… insensível.”

“Algumas, quanto mais amam, mais brigas arranjam com o marido. É verdade; eu conheci uma assim: “É que eu o amo muito”, dizia, “e por conta desse amor o torturo e assim o faço sentir”. Você sabia que pelo amor pode-se torturar uma pessoa propositalmente? As mulheres ainda mais. E ela pensa consigo mesma: “Depois vou amá-lo tanto, vou acariciá-lo tanto que não faz mal agora torturar um pouquinho”.”

“E como é bom fazer as pazes depois de uma briga, declarar-se culpada perante ele ou perdoá-lo! E como é bom para ambos, como fica bom de repente: é como se tivessem se conhecido novamente, se casado novamente e o amor tivesse começado novamente.”

“O amor é um mistério divino e deve ficar escondido dos olhos de todos os estranhos, haja o que houver. Quanto mais sagrado isso o fizer, melhor.”

“Dizem que ter filhos é difícil. Mas quem diz isso? É uma alegria celestial! Você gosta de crianças pequenas, Liza? Eu gosto muitíssimo. Sabe: um menininho assim todo rosadinho, mamando de seu peito; mas que marido não terá seu coração voltado para a esposa ao olhar para ela enquanto segura a criança! Uma criancinha rosadinha, gorduchinha, se esticando, se espreguiçando; as mãozinhas e os pezinhos roliços, as unhinhas limpinhas, pequeninas, tão pequeninas, que é até engraçado olhar, os olhinhos como se entendessem tudo. E enquanto ele mama, aperta seu peito com a mãozinha, brinca com ele. O pai chega perto e ele se solta do peito, curva-se inteirinho para trás, olha para o pai e ri, como se fosse muitíssimo engraçado, e novamente, novamente se põe a mamar.”

“Liza, é preciso primeiro aprender por si mesmo a viver, e só depois culpar os outros!”

“Pense bem: o que é que você está entregando aqui? O que está vendendo? A alma, a alma, que não é sua posse, é isso que você vende junto com o corpo! Você entrega o seu amor para ser profanado por um bêbado qualquer! O amor! Mas ele é tudo, ele é um diamante, o tesouro de uma donzela é o amor!”

“Seus olhos eram castanho-claros, olhos belíssimos, vivos, capazes de refletir em si tanto o amor como um ódio sombrio.”

“tudo eu exagero, é nisso que peco”, repetia para mim mesmo de hora em hora.

“meu apartamento era o meu palacete, a minha casca, a minha caixinha em que eu me escondia de toda a humanidade,”

“— Não, não, não imagine nada! — gritei ao ver que ela subitamente corara. — Eu não me envergonho de minha pobreza… Pelo contrário, vejo minha pobreza com orgulho. Sou pobre, porém honrado… É possível ser pobre e honrado — resmunguei. — A propósito… Quer chá?”

“O maior mártir era, é claro, eu mesmo, porque tinha plena consciência de toda a repulsiva baixeza de minha estupidez raivosa, e ao mesmo tempo não podia de forma alguma me conter.”

“— Por que você veio? Responda! Responda! — gritava eu, quase fora de mim. — Eu vou dizer a você, minha cara, por que é que você veio. Você veio porque eu disse a você palavras de compaixão naquele dia. E aí você ficou enternecida e quis novamente “palavras de compaixão”. Pois saiba, saiba que eu estava caçoando de você naquele dia. Agora também estou caçoando. Por que está tremendo? Sim, estava caçoando! Eu havia sido ofendido antes, durante o almoço, por aqueles mesmos que chegaram lá antes de mim. Fui até lá para dar uma surra em um deles, um oficial; mas não consegui, não os alcancei; era preciso descontar a ofensa em alguém, conseguir o que eu queria, você apareceu, eu despejei em você a minha raiva e me diverti. Fui humilhado e quis eu também humilhar; fui tratado como um trapo, então eu também quis demonstrar algum poder… Foi isso que aconteceu, mas você achou que eu tinha vindo apenas com o intuito de salvá-la, não foi? Você não achou? Você não achou?”

“O fato de que eu agora esteja confessando tudo isso a você também jamais perdoarei! Sim, você: somente você deverá pagar por tudo isso, porque você apareceu assim, porque eu sou um ordinário, porque eu sou o mais abjeto, o mais patético, o mais mesquinho, o mais estúpido, o mais invejoso de todos os vermes da terra, que não são em absoluto melhores que eu, mas que, sabe Deus por que motivo, nunca ficam constrangidos; enquanto eu vou passar a vida levando tabefes de qualquer piolho: essa é a minha maior característica!”

“Ela subitamente saltou da cadeira numa espécie de ímpeto incontrolável e, precipitando-se em minha direção, mas ainda assim acanhada e sem ousar sair do lugar, estendeu os braços para mim… Meu coração então confrangeu-se. Ela então lançou-se subitamente em minha direção, envolveu meu pescoço com seus braços e começou a chorar. Eu também não me contive e solucei de uma forma que nunca antes me acometera… — Não me deixam… Eu não posso ser… bom! — mal consegui dizer, indo depois até o sofá, onde caí de bruços e solucei por quinze minutos num verdadeiro ataque histérico.”

“Ela apertou-se contra mim, me abraçou e como que congelou naquele abraço.”

“Não sei, mas eu tinha vergonha. Também passou pela minha cabeça perturbada que os papéis agora haviam se invertido definitivamente, que a heroína agora era ela, e que eu era uma criatura tão humilhada e destruída como ela fora diante de mim naquela noite, quatro dias antes… E tudo isso me ocorreu ainda naqueles momentos em que eu estava deitado de bruços no sofá!”

“Meus olhos brilharam de paixão, e apertei com força suas mãos. Como eu a odiava e como me sentia atraído por ela naquele momento!”

“Sequer em meus sonhos de subsolo imaginava o amor de outra maneira que não como uma batalha; começava sempre por ódio e terminava com uma submissão moral, sendo que depois não podia sequer imaginar o que fazer com o objeto submetido.”

“porque para a mulher é no amor que se encerra toda a ressurreição, toda a salvação — de qualquer tipo possível de ruína — e todo o renascimento, e que de outra maneira que não essa não pode jamais surgir.”

“Parei junto à mesa ao lado da cadeira na qual ela se sentara, e olhei inexpressivamente para o vazio. Um minuto se passou, e de repente estremeci por inteiro: bem diante de mim, sobre a mesa, eu vi… Resumindo, vi uma nota azul de cinco rublos amassada, a mesma que um minuto atrás eu colocara em sua mão. Era a mesma nota; não podia ser outra; nem havia outra em casa. Ela, portanto, tivera tempo de jogá-la sobre a mesa no momento em que eu me afastara para o outro canto.”

“A ofensa é afinal uma purificação; é a mais mordaz e dolorosa tomada de consciência! Amanhã mesmo eu sujaria sua alma e extenuaria seu coração. Mas agora a ofensa jamais morrerá nela, e não importa quão abjeta seja a sujeira que a aguarda, a ofensa haverá de elevá-la e purificá-la… Pelo ódio… Hum… Talvez também pelo perdão…”

“De fato, quero agora de minha parte fazer uma pergunta inútil: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? O que é melhor, hein?”

“Um romance precisa de um herói, sendo que aqui estão reunidas propositalmente todas as características de um anti-herói,”

“Sentimos o peso até mesmo de sermos humanos, humanos com um corpo e com sangue verdadeiros, próprios; temos vergonha disso, consideramos uma desonra e fazemos de tudo para sermos algum tipo hipotético de homem universal. Somos natimortos, e há tempos não temos nascido de pais vivos, e isso nos agrada mais e mais. Tomamos gosto. Em breve daremos um jeito de nascermos de ideias. Mas basta; não quero mais escrever “do subsolo”…”

 

 

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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