NOTA LITERÁRIA #02 – A PÁTRIA DE CHUTEIRAS (NELSON RODRIGUES)

Nelson Rodrigues, sem dúvida, é o maior cronista que já li, senão, o maior escritor. Não é exagero! O Nelson tinha uma crueldade, e, ao mesmo tempo, uma profundidade na escrita de nos fazer estarrecer lendo suas palavras. Digo de boca cheia: Nelson é um gênio brasileiro; Nelson é um moralista, e todo moralista, no sentido filosófico, é um especialista da alma humana.

Livro: A Pátria de Chuteiras

Autor: Nelson Rodrigues

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Contexto do livro: Nelson, através de suas crônicas esportivas, faz uma comparação esplêndida do Brasil com o futebol brasileiro. É simplesmente um olhar além do nosso tempo. Cansado de ver “entendidos” de sua época vociferando que o Brasil não era de nada no futebol, que os europeus tinham classe e apenas eles sabiam jogar bola, escreveu com as entranhas as crônicas que estão neste livro.

Notas:

“De uma maneira geral, e de forma bem simples, dizemos que um autor é clássico quando ele ultrapassa o seu tempo, quando a sua literatura o ultrapassa, vive mais que ele mesmo, que toda a sua geração, se comunicando com todos os homens ao longo do tempo.”

“Persistia a convicção de que o jogador brasileiro era covarde, tremia diante do estrangeiro. O cronista combateu a ofensiva derrotista como um zagueiro zeloso.”

“…um herói: nenhum clube, nenhum povo tem o direito de vender seus heróis. Nem o herói tem o direito de vender a si mesmo. Amigos, no dia em que deixarmos de prezar os valores gratuitos, vamos cair todos de quatro, todos.”

“Eu digo que a Copa de 62 foi mais importante pelo seguinte; — porque foi mais difícil, mais árdua, mais áspera, mais dramática. A facilidade humilha.”

“Na Suécia, o escrete era um ilustre desconhecido. Ninguém sabia dos nossos dons, ninguém imaginava a graça, o sortilégio do nosso futebol. Os europeus lançaram em campo o seu futebol todo medido, todo acadêmico, sem um toque de fantasia, quadradíssimo. Muito bem. E o Brasil entrou com os seus dons maravilhosos de molecagem, de malandragem. Cada jogada de um Pelé, ou de um Mané, ou de um Didi, ou de um Zito vinha pesada, vinha encharcada de imaginação. Os do Velho Mundo entraram pelo cano, e vamos admitir: — tinham de entrar.”

“Numa simples jogada, nós pomos uma carga de vontade, de caráter, de personalidade, de invenção que o europeu sequer compreende. Eu diria ainda que nós também “vivemos” o futebol, ao passo que o inglês, ou o tcheco, o russo apenas o joga. Há um abismo entre a seca objetividade europeia e a nossa imaginação, o nosso fervor, a nossa tensão dionísica.”

“E posso imaginar a perplexidade dos vermes, que se preparavam para roer-lhe as pobres carnes lívidas.”

“Um colega puxou-me pelo braço e cochichou: “O povo não erra nunca!” Eu ia concordar. Súbito, porém, penso que esse mesmo povo salvou Barrabás e condenou Cristo. Enquanto crucificava o Messias, a multidão carregava o Barrabás na bandeja, e de maçã na boca, como um leitão assado.”

“…brasileiro reage ao bem que lhe fazem com uma gratidão amarga e quase ressentida.”

“Não sabemos admirar, não gostamos de admirar. Ou por outra: — só admiramos num terreno baldio e na presença apenas de uma cabra vadia. Ai de nós, ai de nós! Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio.”

“Satanás daria a metade de suas trevas por uma furtiva lágrima de amor.”

“Os pessimistas (que sempre os há) rosnam pelas esquinas e pelos botecos: — “Humildade, humildade.” Mas é uma abjeção falar em humildade no Brasil. Olhem este povo de paus de arara. Ante as riquezas do mundo, cada um de nós é um retirante de Portinari, que lambe a sua rapadura ou coça a sua sarna. A humildade tem sentido para os césares industriais dos Estados Unidos. Já o pau…”

“Então eu vi que a tragédia do subdesenvolvimento não é só a miséria ou a fome, ou as criancinhas apodrecendo. Não. Talvez seja um certo comportamento espiritual. O sujeito é roubado, ofendido, humilhado e não se reconhece nem o direito de ser vítima.”

“Numa competição modesta de cuspe a distância, o torcedor exige o mistério das grandes individualidades. No futebol, a própria bola parece reconhecer Pelé ou Garrincha, e só falta lamber-lhes os pés, como uma cadelinha amestrada. Ai do teatro que não tenha uma Sarah Bernhardt ou uma Duse.”

“Em futebol, como em tudo o mais, o craque é decisivo. Evidente que os onze são indispensáveis. Mas o que leva público e faz bilheteria é o craque. Eu diria que, no time de Pelé, só ele existe e o resto é paisagem. Em 62, já os europeus faziam o seu coletivismo. Pois bem. Pois o nosso Mané, com um piparote, desmontou todo o coletivismo do inimigo. Num instante, a estrutura do futebol solidário esfarelou-se.”

“No dia em que desaparecerem os Pelés, os Garrinchas, as estrelas, enfim, será a morte do futebol brasileiro. E, além disso, no dia em que desaparecerem as dessemelhanças individuais — será a morte do próprio homem.”

“Até Deus, lá do alto, há de admirar-se e há de concluir: — “Esse Garrincha é o maior!” O “seu” Mané não trata a bola a pontapés como fazem os outros. Não. Ele cultiva a bola, como se fosse uma orquídea rara.”

“Garrincha não pensa, nem precisa pensar. Saldanha ou qualquer outro vive do raciocínio. Nós pensamos todos os nossos atos. Não fazemos nada sem um penoso processo mental. Antes de atravessar a rua, ou de chupar um Chicabon, o homem normal é lacerado de dúvidas. Ele estaca diante da carrocinha amarela e, acometido de uma perplexidade hamletiana, pergunta, de si para si: — “Tomo ou não tomo o Chicabon? Talvez seja melhor não tomar o Chicabon. Ou devo tomar?” Em futebol, a mesma coisa. Ao praticar um reles arremesso lateral, o jogador esbanja um tempo precioso ao escolher o companheiro que deve receber a bola. O ser humano pensa demais e é pena, pois a vida é, justamente, uma luta corporal contra o tempo. Repito: — o ser humano vive pouco porque pensa muito. Ora, a máxima característica terrena de Garrincha é a seguinte: — ele não precisa pensar. E, por isso, porque não pensa, posso apontá-lo como a única sanidade mental do Brasil.”

“E, de fato, tido como retardado, Garrincha provou, no Campeonato do Mundo, que retardados somos nós, e repito: — nós que pensamos, nós que raciocinamos. Resta perguntar: — se Garrincha não pensa, vive então de quê? Vive do instinto, da prodigiosa e instantânea clarividência do instinto. Enquanto os outros se atrapalham e se confundem de tanto pensar, Garrincha age com rapidez instintiva e incontrolável. Foi assim na Suécia. Ninguém pensa mais do que o europeu. Mas enquanto o sueco, o francês ou o galês pensavam no que faria “seu” Mané, já o brasileiro se tinha disparado como um tiro, já invadira a área inimiga, com uma velocidade superior à do som, da luz. Viu-se, então, que o raciocínio é uma draga, uma carroça diante da agilidade vertiginosa do instinto.”

“Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado. Eu próprio, certa vez, desprezei um homem, tive por esse homem a maior náusea ética. Não podia vê-lo sem que minha úlcera desse pulinhos de rã. Sem fazer segredo do meu horror, chamei-o, em público, de cadáver moral.”

“No futebol, a apoteose está sempre a um milímetro da vaia.”

“A ninguém ocorria que o supercraque não precisa jogar bem. O perna de pau é que tem de se matar em campo. De mais a mais, o gênio pode ter as suas nostalgias da burrice.”

“Repito: o futebol se nutre de pornografia como uma planta de luz.”

“A um confrade que veio, de avião, do Pacaembu, eu perguntei: “Que tal o Coutinho?” O colega baixa a voz: “Bárbaro!” Insisti: “E o Pelé?” Resposta: “Bárbaro!” Fui adiante: “E Dorval? Pepe?” A tudo, o sujeito respondia, de olho rútilo: “Bárbaro!” Então, eu me convenci, de vez, que o ataque do Santos se constitui, realmente, de sujeitos que não respeitam e, pelo contrário, brutalizam a bola, e cravam, nela, os seus caninos de vampiro.”

“Mas o tempo, no futebol, é rapidíssimo. Um minuto vale um mês ou mais. E, aos 37 anos, o indivíduo é gagá para a bola, e insisto: — o indivíduo baba de uma velhice irremediável. A própria bola, o refuga e trai.”

“Amigos, eis a verdade eterna do futebol: — o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários. Um atacante, um médio e mesmo um zagueiro podem falhar. Podem falhar e falham vinte, trinta vezes num único jogo. Só o arqueiro tem que ser infalível. Um lapso do arqueiro pode significar um frango, um gol, e, numa palavra, a derrota.”

“— para o jogador de caráter uma vaia é um incentivo fabuloso, um afrodisíaco infalível.”

“Assim é o brasileiro de brio. Deem-lhe uma boa vaia e ele sai por aí, fazendo milagres, aos borbotões. Amigos, cada jogada de Julinho foi exatamente isto: — um milagre de futebol.”

“A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: — temos dons em excesso.”

“Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol.”

“É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha.”

“Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.”

“A doçura, a cerimônia, a timidez do nosso futebol são defeitos gravíssimos. Um jogador brasileiro tem vergonha de pisar na cara do adversário caído. O europeu, não. O europeu não recua diante de nada.”

“Pois o Brasil não fez um único e escasso vexame. Era de dar pena a correção dos nossos rapazes. Jogavam na bola e só na bola.”

“…o mundo vira um escrete tão doce e de uma inocência quase suicida. Um sociólogo que lá estivesse havia de fazer a constatação apiedada: — “O escrúpulo é próprio do subdesenvolvimento!”

“Alguém perguntará: — “Por que essa gana de tantos contra um só?” Vejamos. Primeiro, porque ele não tem medo. Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.”

“Quem quer que tenha um mínimo de isenção, de objetividade, de apreço aos fatos sabe que o futebol brasileiro é o melhor do mundo. Não sou eu que o digo, mas o óbvio, sim, o óbvio ululante.”

“Ouvi em silêncio o craque patrício e, sem nada dizer, dei-lhe toda a razão. Perguntará o leitor, em sua espessa ingenuidade: — “O brasileiro não gosta do brasileiro?” Exatamente: — o brasileiro não gosta do brasileiro. Ou por outra: — o subdesenvolvido não gosta do subdesenvolvido.”

“Graças a Deus o escrete parte. O que nem todos percebem é que o time nacional leva um maravilhoso trunfo. No México, ele se sentirá muito menos estrangeiro do que aqui. E estará protegido pela distância. Acreditem que a distância será a nossa ressurreição. Se me perguntarem o que deverá fazer a seleção para ganhar a Copa, direi, singelamente: — “Não nos ler.” Sei que as nossas crônicas vão aparecer, por lá, como abutres impressos. Não importa. O que interessa é fugir da feia e cava depressão que dos nossos textos emana.”

“Vou concluir: — o “entendido” só não se torna abominável porque o ridículo o salva.”

“Uma Copa é uma guerra de foice no escuro. Mas parte da nossa imprensa pôs a boca no mundo: — “Humildade, humildade!” Eu pergunto: — o que é o brasileiro? O que tem sido o brasileiro desde Pero Vaz de Caminha? Vamos confessar a límpida, exata, singela verdade histórica: — o brasileiro é um pau de arara. Vamos imaginar esse pau de arara na beira da estrada. Que faz ele? Lambe uma rapadura. E além de lamber a rapadura? Raspa, com infinito deleite, a sua sarna bíblica.”

“Outro exemplo: — a mulher bonita. Conheci uma que era linda, linda. Quase uma Ava Gardner ou mais do que a Ava Gardner. Quando o marido entrava, ela se lançava não aos seus braços, mas aos seus pés. E fazia apenas isto: — beijava um sapato do marido e, depois, o outro sapato. Também podia fazer isso porque era maravilhosa. Por onde passava ia ateando paixões e suicídios. A humildade era a sua vaidade de mulher bonita.”

“E o que se vê na Copa é esta coisa infinitamente patusca: a morosidade inteligentíssima dos brasileiros derrubou a velocidade burríssima dos europeus. Finalmente, diante dos resultados concretos, o povo não lê mais os “entendidos”.

“Se Napoleão tivesse sofrido as vaias que flagelaram o escrete, não ganharia nem batalhas de soldadinhos de chumbo.”

“Nunca uma seleção fez, na história do futebol, uma jornada tão perfeita como o Brasil em 70.”

“Amigos, glória eterna aos tricampeões mundiais. Graças a esse escrete, o brasileiro não tem mais vergonha de ser patriota. Somos noventa milhões de brasileiros, de esporas e penacho, como os Dragões de Pedro Américo.”

“O técnico não precisa apenas entender de bola. Antes de mais nada, precisa ser um guerreiro.”

“Mais outro defeito do João: — doutrinou o escrete para não levar desaforo para casa. Os lorpas, os pascácios, os bovinos hão de perguntar: — “E a esportividade?” Respondo que, na Copa, a esportividade é uma piada de necrotério.”

“Ele fez a advertência mundial: — “Meu jogador não dará o primeiro tiro. Mas, se começarem, nós vamos acabar com a guerra.”

“Temos uma piedade frívola e relapsa. Gostamos de esquecer. Eu falei em “piedade” e gostaria de notar: — o brasileiro esquece antes da compaixão.”

“Amigos, eis uma verdade inapelável: — só os subdesenvolvidos ainda se ruborizam. Ao passo que o grande povo é, antes de tudo, um cínico.”

“Como se sabe, esta Copa é uma selva de pé na cara. E, no entanto, vejam vocês: — o brasileiro lá apareceu com um jogo leve, afetuoso, reverente, cerimonioso. E havia um abismo entre os dois comportamentos: nós, fazendo um futebol diáfano, incorpóreo, de sílfides; os europeus, como centauros truculentos, escouceando em todas as direções.”

“O Brasil naufragou num mar de contusões por isso mesmo: — porque sabia apanhar e não sabia reagir.”

“Os cretinos fundamentais poderão dizer: — “Ridículo.” E daí? Com um mínimo de ridículo não há herói, não há santo, não há profeta.”

“E, de fato, é muito difícil elogiar o Brasil no Brasil, é muito difícil elogiar o brasileiro entre brasileiros.”

“Sem entender mais nada, perguntava de mim para mim: — que espécie de prazer, que miserável volúpia, que satisfação demoníaca e suicida leva o brasileiro a cuspir na própria imagem como um Narciso às avessas? Por quê, meu Deus, por quê?”

“Ao ouvir tamanha insanidade, um colega rosnou, ao meu lado: — “Se até o futebol brasileiro não presta, vamos fechar o Brasil.”

“É o Brasil. Há, na vida dos povos, um momento de tal euforia que os idiotas somem, os imbecis desaparecem. O próprio Anselmo Duarte. Não era nada, ou por outra: — era um canastrão chapado, um canastrão da cabeça aos sapatos. E, uma noite, Anselmo foi dormir um e acordou outro. Aí está o sortilégio do Brasil: — o canastrão da véspera pode ser o gênio do dia seguinte.”

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