SEM GARANTIA E COM DEFEITO

Ela permanecia na cama, exausta. O sêmen ainda escorria entre suas coxas. Miguel foi até a cozinha, abriu a geladeira e pegou uma cerveja. Em apenas um gole bebeu mais da metade da lata. Sentiu seu corpo gelar instantaneamente à medida que a cerveja ia descendo até seu estômago. Pegou mais uma lata e levou para Júlia, que agradeceu com um tímido sorriso. Júlia era nova, tinha seus 19 anos. Era de poucas palavras e de um temperamento subjetivo.

– Está ficando com quantas gurias além de mim?

– Mais uma, mas ela quer algo mais sério, e não estou a fim de magoar ninguém. – respondeu Miguel, numa sinceridade ímpar.

– Você não percebe que já está magoando ela?

– Percebo. Mas não tem saída. Ela quer uma coisa e eu quero outra. Gosto dela, mas nada transcendental.

– E se eu quisesse algo mais sério?

– ‘Até tu Brutus?’ – brincou – Você sabe que acabei de sair de um relacionamento de anos.

– E qual a garantia que eu tenho de você? – ironizou.

– Então, não há garantia. É sem garantia e com defeito. Aceita?

– Preciso pensar – Júlia abriu a cerveja.

– Olha, não gosto de iludir ninguém. O problema é que quanto mais vamos criando intimidade, automaticamente ficamos iludidos. As pessoas têm a mania de achar que são donas de seus desejos e sentimentos, mas quando se dão conta, estão presas a alguém; e este alguém muitas vezes não percebe isso. E mesmo quando percebe, vai magoar o outro do mesmo jeito.

– Acha bonito isso?

– Não é questão de achar bonito ou feio, é o risco que se corre quando nos relacionamos com alguém. Quantos caras já choraram por você? – Júlia olhou para o teto, buscando trazer à tona suas memórias.

– Não muitos.

– Melhor ainda: com quantos caras você está ficando?

– Você e mais um.

– E se eu me apaixonar por ti? Corro um grande risco de ser tua segunda opção. – Júlia virou-se de frente para Miguel e o encarou.

– Você não é minha segunda opção!

– Então é o outro! O que acontece é que todos sabemos quem importa mais. Às vezes pode ser difícil escolher, mas no fundo, não conseguimos ser racionais se tratando de relacionamentos. Vamos para o lado que mexe com nossa alma, mesmo que este lado seja o pior. Se fôssemos tão racionais como pregam por aí, ninguém sofreria por ninguém neste mundo. Deve ser por isso que nos apaixonamos pelas pessoas erradas cem por cento das vezes.

Miguel levantou da cama e foi para o banheiro. Júlia ficou a refletir em tudo que o rapaz dissera. Do quarto, ela ouviu o som do chuveiro. Tomou o resto de sua cerveja enquanto mexia no celular. Após uns cinco minutos, Miguel saiu do banheiro se secando, pegou a toalha e jogou em cima da cama.

Imediatamente Júlia o reprime:

– Miguel, tire essa toalha molhada da cama!

– Força do hábito.

– Homens…

– Mulheres…

Em seguida Miguel deitou na cama, Júlia deitou sobre seu peito, os dois ficaram em silêncio até adormecerem.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

2 comentários em “SEM GARANTIA E COM DEFEITO

  1. Amei! Quem nunca esteve nessas situações, não é mesmo? Sabendo que é errado e achando que é o mais certo mesmo assim! Parabéns pelo texto.

    Curtido por 1 pessoa

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