RELIGIÃO FUNCIONA!

Apesar de não acreditar em Deus algum, sei que a religião funciona. Funciona no sentido que enxuga as lágrimas, acalenta as almas, fortalece vínculos. Ao contrário do que a moçada ateísta militante pensa, Deus é um conceito belo e fornecerá reflexões sobre sua existência ou inexistência até existirem seres racionais no universo.

Sou um grande admirador da religião cristã e suas diversas vertentes. E sim, eu sei que muito já se matou por causa de religião, mas também muito já se matou em nome da ciência. No fim, o ser humano mata porque gosta. Com o iluminismo, tivemos a falsa impressão que descobriríamos um novo homem capaz de matar Deus e ter fé nele mesmo, ou pior, ter fé que a ciência resolveria todos os problemas das almas humanas. As atrocidades ocorridas no século XX com a ajuda da ciência é a prova cabal de que não é só a religião que mata “infiéis”.

Se você está com gripe, tome remédios antigripais; se você está com alguma bactéria, tome um antibiótico; se você quer prevenir vírus, tome vacinas; se você está com micose, passe pomada. A ciência, sem sombra de dúvidas, nos eximiu de diversos sofrimentos que antigamente exterminavam nações inteiras. Hoje vivemos mais, com mais saúde física, com uma infinidade de escolhas, porém, sou obrigado a fazer dois questionamentos: somos mais felizes por isso? E as doenças da alma, a ciência pode ajudar?

Felicidade é uma ideia velha, felicidade nada mais é que um momento onde ganhamos potência de agir, mas normalmente ele é destroçado por perda de potência, pois a vida tem uma capacidade atroz para te entristecer. A contemporaneidade sofre com numerosos casos de depressão, suicídios e diversas outras doenças psíquicas, pois apesar de termos descoberto a cura para doenças microbiológicas, não descobrimos ainda como vamos lidar com nossas angústias referentes às infinitas escolhas que podemos fazer. Cada vez mais se prega a perfeição do humano. Temos que estudar, trabalhar, falar três línguas, entender sobre investimentos, irmos ao médico trimestralmente, ser um bom companheiro(a), agradar pessoas que odiamos, não falar palavras que possam ofender qualquer minoria, tirar fotos “cool” para postar no Instagram e parecer bem resolvido em todas as nuances da vida.

A ciência ainda vai curar a tristeza, a depressão e qualquer defeito genético que algum humano ousar ter no futuro. Estamos caminhando para isso. Atualmente existem medicamentos para tristeza, ansiedade, depressão entre outros. Já imaginou: acordei triste hoje, vou tomar um remédio para ficar feliz; acordei angustiado, tomarei remédio desangustiante; acordei apaixonado, tomarei remédio anti-amor. E assim segue… seremos levados apenas pela ciência, exatamente como em Admirável Mundo Novo, de Huxley. E Deus? Em uma sociedade apática e insofrível, ele não existiria.

Quando chegarmos a isso, o humano em essência não existirá mais. O que existirá são humanos artificiais que não sofrem, não sentem, não vivem e não fracassam. O que nos humaniza é o fracasso, é a dúvida consigo mesmo, é o amor que te faz cometer as maiores irracionalidades da vida, é a angústia por ter tudo e nada ao mesmo tempo, é a culpa por ter errado, é sentir cada sentimento, é provar cada amizade verdadeira e tentar entender o porquê aquela pessoa te dá potência de agir, é ficar horas e horas refletindo sobre Deus.

Deixo claro que não sou contra o avanço científico, apenas estou refletindo sobre ciência e religião. A religião é necessária para as doenças da alma. Às vezes um pai celestial pode fazer muito mais para seus filhos do que um pai biológico; um exército que acredita estar abençoado por deuses possui uma coragem absurda em batalha; homens e mulheres com uma fé colossal em Deus parecem conseguir enfrentar as mazelas que a vida traz com mais facilidade, pois tudo tem um motivo, tudo é um plano de Deus, mesmo que este Deus possa estar morto, como afirmou Nietzsche.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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