SOBRE HOMENS E MULHERES

Ao chegar no trabalho, Lima me chamou.
– Cara, conheci uma guria sensacional.
– Mas outra? – indaguei, um pouco surpreso.
– Mas esta é diferente, sabe conversar, sempre tem assunto, já é mãe. Mostra muita maturidade. Diferentemente de quase todas que conheci nos últimos anos.

Lima era solteiro há 2 anos e começara morar sozinho há pouco tempo. Era um bom rapaz. Tinha apenas 23 anos e já fazia muitos planos, o que era admirável para alguém de sua idade. Era um cara reservado; sempre muito prudente ao falar de sua vida pessoal no trabalho. Além disso, tinha muitas amigas mulheres. Eu não entendia como ele fazia isso. As moças eram, na maior parte, bonitas. Por diversas vezes elas iam em sua casa e ele na casa delas, mas, segundo Lima, nunca aconteceu nada demais além da amizade.
Na saída do trabalho, normalmente voltávamos caminhando juntos para nossas residências; e naquele dia não foi diferente.
– Olha ela aqui! – me mostrou uma foto dela no seu celular.
– É, ela é bonita. Conheceu onde?
– Rede social. Ela me adicionou, eu curti algumas fotos e então começamos a conversar.
– Hmmm, mas vá com calma. – disse a ele, sabendo que é fácil frustrar-se quando a expectativa vai além da realidade.

No outro dia, eu e Lima não conseguimos parar para conversar, apenas na saída do trabalho. Notei que estava mais cabisbaixo, nada demais. Mas comparando com o dia anterior, a diferença era enorme. Não precisei dizer nada, logo me falou:
– Conheci ela ontem.
– Como?
– Ela disse que estava de folga. Fui buscá-la em uma cidade próxima daqui. Pensa: tive que ir de moto até na casa da minha mãe no dia mais frio do ano, peguei o carro, fui buscar ela. Acordei hoje pela manhã uma hora mais cedo para levá-la, levei o carro para minha mãe, peguei minha moto e vim trabalhar.
– O que um homem não faz para transar?! – enfatizei. Ele riu.
– Cara, pensa numa guria boa de cama! Acho que foi uma das melhores.
– Então tu está apaixonado.
– Não! Ao contrário, senti até uma repulsa depois que gozei. Claro que não foi como as outras, que imediatamente depois de transar dava vontade de mandá-las embora. Mas sabe quando o encanto acabou? É isso. E o que não entendo é que ela é realmente excelente, mas agora, só de pensar em ficar conversando com ela, já fico entediado. – ouvi aquela declaração demasiadamente sincera atentamente. Por uns instantes me vi na época em que era solteiro.
– Como nos entender? Lembro da época de solteirice. Conheci mulheres excelentes também, porém, tinha vontade de mandá-las embora depois de transar. Me sentia muito mal por pensar assim, pois eu via que elas gostavam e se esforçavam para me agradar; e mesmo assim, no fundo eu sabia que já tinha acabado antes mesmo de começar. Não dá para entender isso. A única conclusão é que este é nosso instinto animal, é biológico, acontece com todos. Todos sentem ou já sentiram essa repulsa e esta perda de encanto depois de esvaziar. É por isso que sabemos quando estamos apaixonados por uma mulher; temos vontade de algo a mais; e mesmo depois de transar tu deseja que ela fique ali, contigo, seja para dormir, para assistir a um filme, para cozinhar. E nada vai mudar este fato.
– Tem razão. Não me orgulho de ser assim, mas não escolhemos sentimentos, eles simplesmente acontecem, e mais cedo ou mais tarde, vou ter que falar pra ela a verdade. – Lima aperta os lábios, parecia desapontado consigo mesmo.
– Não se preocupe, ela vai perceber na primeira conversa de vocês que o encanto já não é mais o mesmo. Mulheres são excelentes em ler nas entrelinhas. Porém, nada garante que ela vai desistir de você. E é isto que me deixa intrigado. Quantas e quantas vezes dispensei mulheres e mesmo assim elas vinham atrás?! Quando paro para lembrar de como fui frio por diversas vezes, me sinto mal, mas não dava para ser diferente. Que merda!
Assim que chegamos no ponto onde cada um ia seguir seu rumo, paramos e ficamos a conversar mais.
– O mundo parece, por diversas vezes, ser muito injusto com as mulheres. Uma mulher que transa com diversos caras é tachada de vagabunda, um homem que transa com diversas mulheres é tachado de macho alfa. – questiona Lima.
– Te lembra da época da escola? Onde quase todas gurias se interessavam pelo cara popular? E este cara pegava muita gente e gerava inveja em nós, que éramos virjões espinhentos. Às vezes ele era bonito, rico, ou fazia algo muito bem, normalmente um esporte. E quantas e quantas vezes algumas gurias vinham ressentidas falar que tal cara era galinha, cafajeste e sem-vergonha, mas depois estavam saindo com o tal galinha. Mulheres se interessam pelo garanhão, este é o ponto. Nós homens podemos até nos interessar por uma mulher que transa com vários caras e se veste com roupas vulgares, mas nosso faro atávico vai querer apenas uma coisa: transar. Não é belo, mas é sincero. – Lima balança a cabeça num tom de afirmação.
– Nossa natureza descontrolada está no controle. – Lima assume para si mesmo.
– Exatamente! Um paradoxo completo. – afirmo.
– Talvez seja por isso que perdemos o interesse mais rápido quando a mulher se expõe demais. Muitas me mandam fotos nuas, e é claro que eu gosto, mas intrinsecamente eu penso: ela deve mandar para outros, logo, aquela atmosfera do jogo de sedução acaba. Resta apenas a vontade de transar. – Lima ri ironicamente.
– E não tem nada melhor que o jogo da sedução. Não tem nada melhor que tu olhar uma mulher e admirá-la, e nem estou falando apenas de seu corpo, mas do seu jeito, seus valores, o modo como fala, o jeito como senta, o jeito como para, as manias, os trejeitos. E quando tu percebe, ela já está ocupando boa parte do teu dia.
– Concordo, sem tirar nem botar. Mas já que estamos neste assunto, tu acha certo uma mulher dar no primeiro encontro? – indaga, Lima.
– Pra isso não tem certo e errado. Eu e minha namorada transamos no primeiro encontro e eu a amo e a admiro do mesmo jeito. Também temos que pensar que às vezes há um grande caminho até o primeiro encontro. Muitas conversas, confissões, confiança. Então isso, na minha opinião é irrelevante. Claro que é emocionante quando a mulher faz aquele jogo de te deixar quase explodindo de tesão e depois vai embora. Quase morremos quando isso acontece; e a vontade de tê-la só vai aumentando. Mas esta questão é relativa. – concluo.
– Bem, vou pensar num jeito de terminar com a guria. Porque dar falsa esperança é uma atitude covarde, tanto pra mim, quanto pra ela. – Lima estende a mão para se despedir.
– Boa sorte com isso. Até
– Até.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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