UMA SEGUNDA-FEIRA, UM BAR E UM ESTRANHO

            Ao adentrar no bar, caminhou até o balcão e sentou-se em uma das poucas cadeiras. O ambiente estava praticamente vazio. Havia apenas um homem sentado duas cadeiras depois, era mais velho, de estatura grande, cabelos brancos; tomava um whisky sem gelo e fixava seu olhar para a televisão, que não passava nada de interessante. Ivan levantou o braço e logo solicitou:
— Amigo, um chope de meio litro, por favor! — Em seguida o atendente colocou a caneca cheia em frente a Ivan, que abriu um tímido sorriso ao vê-la, como se estivesse chamando-o. O rapaz tomou o primeiro gole como se estivesse caminhado o dia inteiro no deserto sob um sol escaldante. Então o velho, que estava de olho na televisão, virou-se para Ivan:
— Não tem nada melhor que depois de um dia de merda, sentar num bar e tomar uma golada de álcool, não é mesmo?
— Com certeza! Ainda mais numa segunda-feira. — O velho riu.
— Raros são os homens que bebem numa segunda; e quando bebem, normalmente é porque estão passando por algum momento difícil e turbulento ou estão bem de vida e não precisam mais se preocupar com quase nada. No meu caso é a segunda opção. Não que eu seja rico e bem de vida, mas acho que já fiz minha parte no mundo — disse o velho, tomando um gole de whisky. Ivan balançou a cabeça devagar em afirmação.
— No meu caso é a primeira opção. Terminei meu noivado ontem, não sei se tomei a decisão certa ou errei feio. Além disso, meu emprego está uma porcaria, não pelo trabalho que faço, mas por causa das pessoas que trabalham comigo. Sabe quando o clima no ambiente pesa? Parece que a gente fica preso, contido, agoniado. Sem falar que estou há quase dois anos sem ver minha família. Então eu realmente precisava deste chope em plena segunda — desabafou Ivan.
— A vida nunca foi fácil, mas qual é o seu nome guri?
— Ivan, e o seu?
— Me chamo Paulo. — E voltou ao assunto. — Então Ivan, a vida, ao contrário do que vários jovens revolucionários pensam por aí, não é justa, e talvez nunca há de ser. Olhe pra mim – Paulo apontou suas mãos para si mesmo. — Comecei trabalhando na roça com 13 anos. Quando tinha 19 vim pra cidade grande, trabalhei de garçom e fazia bicos de segurança, pois minha estatura ajudava. Depois disso, consegui uma vaga como motorista de ônibus e fiquei na empresa até os 45 anos; hoje tenho 55. Há 10 anos que larguei tudo: trabalho, mulher e uma vida de merda. Decidi virar negociador de imóveis. Me dei bem nesta área, a comissão é boa. Hoje estou confortável materialmente, conheci uma mulher que me faz ficar de pau duro cada vez que chego em casa, comprei uma moto grande pra viajar pela América do Sul e tenho amigos verdadeiros, mas poucos. E talvez agora você vai dizer: ‘a vida foi justa contigo’, e eu te digo: não, tive um pouco de sorte, depois de me foder por 40 anos. A questão aqui não é a sorte, mas às vezes temos que colocar o pau na mesa, colocar tudo a perder. Se seu casamento está por um fio, corte este fio de uma vez; se seu trabalho é um peso a ser carregado, saia, procure outra coisa, mas pelo amor de Deus, não vá viver uma vida torcendo para que ela acabe. Torcendo para que acabe a semana, o mês, o ano, e assim, torcendo para que a vida, uma dádiva de Deus, acabe rápido. — Ao ouvir o discurso de Paulo, Ivan fixou o olhar na caneca de chope, que já estava vazia. Seu pensamento foi longe; então voltou a encarar Paulo e disse:
– Isso foi realmente profundo. Muito melhor que assistir uma palestra motivacional, da qual eu não acredito. — Paulo gargalhou. — Mas é verdade. Não tem nada pior que palestras motivacionais tentando obrigá-lo a ser feliz. Tenho nojo de gente que tenta obrigar as pessoas à felicidade. Parece que quanto mais o ser humano busca conhecer a felicidade, mais ele conhece a infelicidade. E nosso mundo está assim, as pessoas buscam o prazer a todo momento, achando que assim, vão se tornar mais felizes. É como dizia meu avô: o futuro será tomado por barulho, gente fingindo que é feliz e tédio.
Ao terminar a fala, o rapaz pede mais um chope. Paulo aproveita para ir ao banheiro. Ivan olha ao redor, não havia uma alma sequer no bar a não ser ele. Voltando do banheiro, Paulo sentou-se no banco e continuou a conversa.
— Enquanto estava mijando, pensei no que você disse sobre a felicidade. — O garoto sorriu, achando cômica a situação do velho mijando e pensando na conversa dos dois. — Realmente, quanto mais se procura a felicidade, mais desapontado ficamos. Estas coisas não se espera, não procuramos, elas simplesmente acontecem, e é por isso que são tão prazerosas. Lembro-me de quando era guri novo, ficava horas e horas imaginando encontrar a mulher dos meus sonhos, formava na minha cabeça, mulheres perfeitas. Até hoje não achei, tanto é que já fui casado três vezes; e agora estou com a quarta. Desisti de procurar um amor perfeito, porque na verdade o amor está nas imperfeições, a vida está nas imperfeições — disse o velho, apontando sua mão para o rapaz. — Olhe pra você: terminou seu noivado ontem e não sabe se tomou a decisão certa. Na verdade, nunca vamos saber se tomamos a decisão certa, pois vamos viver a tristeza apenas da escolha que fazemos. Mas levante essa cabeça, aparecerão outras; mas ela foi teu primeiro caso sério?
— Foi sim.
— Então, virão outras. Você vai fazê-las sofrer, talvez você sofrerá por algumas, as mais raras. Nós homens sabemos quando uma mulher é rara, não é mesmo?! — afirmou, levantando suas espessas sobrancelhas brancas e com um forte sotaque puxando o “r”.
— Sabemos sim. Espero encontrar outra rara por aí.
— Pra ser sincero, acho que vai demorar um pouco, mas até lá, você vai procurando. — Os dois começaram a gargalhar sem parar; a bebida ajudou, mas há muito que Ivan não sorria assim. Nos últimos meses, seus sorrisos eram de plástico, pois a hipocrisia é a base da moral pública, e ele sabia disso. Aquele momento com o velho era verdadeiro, era Ivan sendo Ivan, e no mundo atual, parecia ser raro momentos como esse.
Após mais uma rodada de bebida, os dois se levantaram, pagaram a conta e caminharam até a frente do bar, onde pararam para se despedir.
— Paulo, obrigado pelos conselhos. Acho que a segunda-feira já valeu a pena.
— Não tem de quê, meu jovem. Às vezes a vida também pode dar certo, mas é bom sempre ter um pé atrás.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: