AMOR LÍQUIDO

Vivemos em tempos líquidos. Tudo que é sólido desmancha no ar, inclusive o amor. Não vemos mais casamentos que duram anos e anos. A modernidade nos trouxe a liberdade, e com ela, a solidão. Tentamos agarrar o amor, mas ele escorre entre nossos dedos. As pessoas não estão mais dispostas a sofrer, não querem problemas e não querem alguém cuidando de suas vidas. E amor é tudo isso: sofrimento, problemas, prepotências. O amor é para poucos.

E viver uma vida de solteiro, tendo a liberdade de não dar satisfação a ninguém, ir pra onde quiser, na hora que quiser e com quem quiser é a chave da felicidade? Talvez para alguns mentirosos. Mas em essência, não há chave para a felicidade. A questão é que o mercado dos afetos está em alta; você compra um afeto, e quando ele estraga, você apenas joga fora e troca por outro, não tenta consertá-lo. E este afeto vai parar na sua caixa de amores quebrados. Logo, se você estragar, também não há conserto, e assim, estamos todos fadados a este mundo cada vez mais líquido.
Nos tornamos um bando de “insofríveis” superficiais, pelo menos nas redes sociais quando postamos fotos felizes em festas, na academia e no trabalho com frases bonitinhas, como: “Que a felicidade vire rotina” e quando passamos a ler livros de autoajuda de autoras e autores medíocres que dizem que temos que nos amar acima de tudo. Porém, ao chegar em nosso quarto, sonhamos com alguém que nos ature e que não nos jogue fora no primeiro problema.

Os medievais diziam que amor é uma doença. Depois os românticos idealizaram o amor com finais sempre felizes e que o príncipe encantado está sempre esperando sua princesa, e vice versa. Se fosse pra escolher um lado, ficaria com os medievais. Não nos apaixonamos por quem queremos; se fosse assim não nos apaixonaríamos pelas pessoas erradas 100% das vezes. Amar é um inferno, eu sei. Nos tornamos refém da pessoa a qual amamos, pois é esta que sabe a frase que te irrita, o jeito que te deixa louco, as manias que você tem, seus defeitos, suas qualidades.

Por isso amar e viver juntos é para poucos. Acho tão lindo quando vejo um casal de velhos juntos, e então você pergunta algo para um deles e o outro responde. Eles se conhecem tanto a ponto de um responder pelo outro. É uma ação tão bela de amor e convivência que me enche o peito de sentimentos bons.

Por mais que o amor seja uma doença sem cura, no fim das contas é esta doença que te dá vitalidade e te faz conhecer a si mesmo. É um paradoxo: uma doença que te faz viver. E este autoconhecimento que vem com o amor e a convivência com seu par é essencial para uma vida digna e cheia de significados. Consigo ouvir críticas negativas de várias pessoas, porém, se a pessoa que amo me ofende ou me critica negativamente, acaba com meu dia ou minha semana.

No amor amadurecemos, crescemos e progredimos. O sofrimento causado pelo amor, que traz uma série de efeitos colaterais, como culpa, desespero, solidão, agonia nos dá uma certa medida de que a vida não é um conto de fadas, mas sim uma série de tristezas, fracassos e claro, um pouco de felicidade. O apego nos ensina a sermos menos medíocres e mesquinhos, e por incrível que pareça, é ele quem nos ensina a viver.

Quando vejo que o mundo se tornou um mar de gente desapegada e pregando a “lei do desapego” tenho vontade de vomitar. Shakespeare certamente iria se suicidar se estivesse vivo com um monte de gente frouxa, que não se aprofundam em nada e que ficam o tempo inteiro postando e falando bobagens irrelevantes em seus meios sociais.

Enfim, bem-vindos à liquidez do mundo moderno, nem o amor escapou…

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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