EM NOME DO PAI, DO FILHO, DO ESPÍRITO SANTO, AMÉM

Uma das coisas que mais me toca é a misericórdia. Aquela compaixão com o outro, sendo este outro físico ou metafísico. Meu velho pai, com sua enorme alma de caminhoneiro – talvez porque trabalhou nisto a vida inteira -, sempre fazia e acredito que ainda faz o sinal da cruz em todas as igrejas e monumentos religiosos cristãos que beiram as estradas deste Brasil. Já imaginou quantas igrejas existem do Rio Grande do Sul a São Paulo? Pois é…

E você agora deve achar que ele é um fundamentalista religioso. Não! Nunca! A fé dele é tão particular – e isso que eu acho belo -; é como se meu pai tivesse um Deus só pra ele, e que este Deus todo poderoso o protege por toda sua arriscada viagem. E acredito que o proteja mesmo: depois de se envolver em três acidentes, todos com mortes, sendo que nenhum a culpa foi dele, parece coisa do divino.

E a cada acidente, sua fé crescia mais, seus anjos da guarda o protegiam mais, e seu Deus o abraçava mais. É como minha mãe fala, na sua admiração mais plena pelo meu pai: “para ser caminhoneiro tem que ser macho”. É verdade. Macho no sentido de andar com a solidão e não desistir, passar semanas longe de casa morrendo de saudade dos filhos e da esposa em uma das profissões mais perigosas do mundo e não enlouquecer, e depois de tudo isso chegar à casa e amar sua família, pois tem a consciência que são mais importantes que qualquer outra coisa na vida.

Meu pai é um homem da prática e não da teoria, apenas faz o que tem que fazer, como um herói trágico, pois os verdadeiros heróis não precisam de plateia ou público para serem gigantes, já o são por si só.

Além do meu pai, minha mãe também possui sua fé particular: seus santos, seus arcanjos protetores, seus anjos da guarda e seu Deus. Em sua casa mantém até hoje um altar com velas, santos e orações, e quando precisa, ora por nós. Lembro quando era pequeno, ao ir dormir com ela, me dizia: “filho, reza para o teu anjo da guarda e agradece a Deus antes de dormir”. Eu sempre seguia seus conselhos. Mantinha um roteiro de orações na minha cabeça e o seguia fielmente, quase toda noite. Quando não rezava me sentia com uma dívida com Deus. Tal divida gerava um pedido de desculpa na próxima oração. Acho que Ele me desculpou.

Talvez uma das coisas que mais me chama a atenção é que nenhum dos dois sabe pronunciar partes da Bíblia, ou sequer tenham a lido alguma vez; raramente vão à Igreja ou a um cemitério, não imputam na cabeça de ninguém sua fé, pois tal fé é de foro íntimo e pessoal. Isso é louvável, isso é belo. Admiro-os com o fundo do meu coração. Admiro-os por conversar com um Deus tão particular quanto o amor que sentem por mim.

Não saberei o que fazer quando partirem, mas uma coisa é certa: olharei com a mais digna fé ao céu, farei o sinal da cruz três vezes – como meu pai fez sua vida inteira -, e direi: em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Amém.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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