O FIM E A SOLIDÃO

Era uma vez um homem bom e demasiadamente inteligente. Passou a vida inteira contendo seus impulsos. Era totalmente metódico e fiel à sua esposa. Em sua adolescência, se formou em química e descobriu coisas magníficas, porém, suas descobertas não lhe renderam nem lucro e nem status, mas pior, foram aproveitadas pelo seu “amigo” da época, que ficou milionário às custas do conhecimento e do esforço do tal homem bom. Não havia pessoa mais ética do que ele. Como a vida não lhe sorrira, resolveu trabalhar como professor de química em uma escola de classe média no horário da manhã e à tarde labutava no caixa de um lava-jato.

Sua medíocre vida seguia bem; e então, com cinquenta anos, descobre um câncer no pulmão. Naquele momento da descoberta do maligno tumor, o chão se abre e ele sente que um Deus mau parece empurrá-lo para um abismo. Pois como poderia ser possível um homem que a vida inteira foi eticamente correto, bondoso, pacífico e cordial, morrer culminado por uma das mais fatídicas doenças terrena? Vendo a morte se aproximar, resolveu arriscar sua então frágil vida em uma carreira no mundo de adrenalina das drogas.

Como era um virtuoso em química, sua droga dominou às ruas; e em pouco tempo arrecadou um dinheiro que jamais ganhara antes em sua vida execrável. Óbvio que sua família não sabia de nada. Cada centavo conquistado, o homem bom – que a essa altura já não era tão bom – guardava para deixar à sua família, esperando então um futuro próspero e exitoso. Porém, ele descobrira o quão era bom naquilo, era como se tivesse achado sua função no universo. Mas a vida é trágica: sua família descobre seus segredos, e assim, desintegram-se de vez. Morre um parente próximo por causa das drogas do homem bom. Sem família, com um câncer tomado em seu pulmão, com a polícia inteira na sua cola, ele se vê obrigado a sumir, e assim o faz.

Como ele ainda possuía dinheiro, contratou um homem que prometera lhe dar uma vida nova, porém, nunca mais poderia retornar à sua cidade ou à sua família. O contratado leva o homem bom para um fim-de-mundo. O lugar era em uma montanha fria, onde a pessoa mais próxima que poderia encontrar era algum índio da aldeia que vivia no pé da montanha. Casinha de madeira com no máximo 30m², um fogão para aquecê-lo no frio de 15 graus negativos e uma velha cama para descansar. O contratado voltaria a cada trinta dias para trazer alimentos, jornais e algo mais que o homem bom demandasse. Neste meio tempo o homem bom foi obrigado a conviver de perto com a solidão. Não havia ninguém, nenhuma alma sequer. Sua barba estava enorme, como seu cabelo. A tosse com sangue aumentava dia após dia. A saudade de sua família era imensa; tal saudade o feria por dentro a cada lembrança de seu filho ou de sua esposa.

Passado os primeiros trinta dias no frio da solidão, o contratado retorna, como o combinado, para trazer notícias e suprimentos. O homem bom consegue abrir um humilde sorriso, que já era raro em seu pálido rosto. Era como se o contratado fosse o último homem da Terra. Porém, o tempo do contratado era contado, e logo teria que partir. Em um ato de pura solidão, o homem bom oferece uma bela quantia de dinheiro para que o contratado ficasse ao menos mais uma hora. O contratado aceita. Passam este tempo tão precioso jogando cartas e conversando sobre a injusta vida. Mas o tempo se esvai, e novamente o homem bom se abraça com a solidão e vê a morte chegando.

Ele sabe que seu fim está próximo, mas este não é o problema; o problema é aquela solidão indizível e inexplicável, acompanhada de uma tristeza infinita que ocupa toda sua alma…

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Preferi não terminar esta história trágica, mas a conclusão que extraio é: pior do que o fim é a solidão; e absolutamente nada pode nos garantir um fim sem a solidão. A vida prega peças. Não é de se espantar que as maiores religiões monoteístas foram criadas no deserto: um lugar extremamente quente à luz do sol, extremamente frio à luz da lua, e o principal, absolutamente vazio. Invejo as pessoas que acreditam piamente em Deus, e que Este Deus as acompanha em cada passo dado, as protegendo, as iluminando e não as deixando cair na absoluta solidão do universo. Queria eu ter esta inabalável fé.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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