NOITE FRIA

            Já era uma da madrugada. Eu estava entediado dentro do apartamento. Precisava de ar, ver movimento, ou apenas, caminhar. Me aprumo rápido e logo estava na calçada. Era uma madrugada fria, não havia muitas almas perdidas a essas horas nas ruas. Normalmente encontro pessoas interessantes nestas saídas imprevisíveis. Naquela sexta, achava que não encontraria ninguém. Ao passar perto de um boteco, resolvo tomar um whisky para esquentar os ânimos e o corpo. Sento no balcão.

               – Amigo, um cowboy!
– É pra já!

             Analiso o bar por completo, não havia mulheres. Isso era triste. Sempre quando chego em um lugar, conto quantos homens e quantas mulheres têm, sei lá, mulheres são mulheres. Tornam o universo masculino mais habitável. Havia dois caras jogando sinuca e outros três olhando, ou seja, estava uma merda. Continuei a beber meu Jack Daniels, que era a única coisa que prestava.

         Já passava das duas da manhã, e eu continuava a beber. Nenhuma presença feminina detectada na área, estava na hora de ir embora. Paguei e segui para a saída. Nas ruas vazias, o vento gelado lufava a minha face. Estava me sentindo meio torpe, mas caminhava bem. Seguia direto para minha casa. Nessas horas me tornava um “auto-filósofo”, pensava sobre felicidade. É interessante que, quando vamos em busca da felicidade, aprendemos muito sobre a infelicidade.

           Filosofias à parte, seguia meu caminho. Era realmente uma merda voltar para casa sem nenhuma companhia. Nem que fosse apenas para conversar, rir, chorar ou desabafar os problemas da vida cotidiana. Me sentia solitário nos fins de semana, cansava de tanto ler, escrever, assistir seriados, me masturbar, me embriagar… A única coisa que procurava era uma companhia, de preferência feminina. Não estava afim de pagar para ter uma mulher, primeiro, porque é só sexo, e segundo, eu não quero só sexo, assim, prefiro minha punheta.

           E continuei a filosofar: a pior frase que alguém pode citar é: “Pega e não se apega”, isso não existe, é um erro cotidiano. Ninguém sai à noite para apenas “pegar”, todos querem se apegar, pois, se for bom, você vai se apegar. Quem diz essa tola frase por aí, deve estar tão sozinho quanto eu. Se apenas “pegamos”, isso é sinal que foi uma merda! Porque, quando realmente gostamos, queremos de novo, e de novo, e de novo, e então, nos apegamos, simples assim.

          Os homens podem ter várias mulheres ao mesmo tempo, mas somente uma é a SUA mulher. Eu sei, todos nós homens sabemos. Sempre haverá aquela que vai fazer você se culpar, se sentir um lixo, um miserável, mas é essa que vale a pena. É essa que te domina, te faz pensar em todas burradas que fez na sua execrável vida, e depois de lamentos e arrependimentos, você liga pra ela, a chama, e ela? Ela vem, pois sabe que talvez, você, expugnado homem, não sobreviva.

         O frio seco resseca minha grande face piegas, mas então, chego ao meu lar. Sento-me no sofá da pequena sala, em uma total penumbra, fecho os olhos e pergunto-me: onde ela está agora? Será que está na cama de outro homem? No fim das contas, espero que ele a faça mais feliz do que eu a fiz, mas mesmo assim, amanhã tento ligar pra ela outra vez.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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